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MÚSICA
Kholwa Brothers

“A nossa visão é de unir, animar e entreter as pessoas de diferentes origens através de um denominador comum - música. Pretendemos restaurar a paz, a humanidade, e a união entre pessoas do continente Africano e do mundo”.

 

Os Kholwa Brothers tornaram-se conhecidos e respeitados por todo o seu país após o fim do apartheid. Originalmente o grupo Kholwa Brothers era formado por nove integrantes. Mas apesar da suposta falta que faria os quatro integrantes – a força do baixo das vozes dos africanos sempre impressiona – as cantigas já estão totalmente adaptadas aos quatro integrantes que compõem o grupo – soprano, alto, tenor e baixo – do coro a capella em que cantam as músicas tradicionais da sua terra, sem qualquer acompanhamento instrumental além da percussão produzida no próprio corpo. Francis, Robert, Mike são pessoas comuns em Durban, que o amor pela música reuniu em um projeto de Derrick Mlambo, o qual, desde criança, sempre sonhara em formar um gruo para cantarem em conjunto canções que ouvia de seus ancestrais na zona rural da província de Kwazulu Natal. Isicathamiya é o gênero mais conhecido que apresentam, uma forma musical surgida na região das minas de ouro de Johanesburgo ainda no tempo do apartheid. Separados de suas famílias, amontoados em alojamentos onde mineiros ocupados em dois turnos de trabalho se revezavam para dormir, os homens de Kwazulu Natal se reuniam para tentar espantar a saudade e o desalento cantando as cantigas dos tempos em que eram ainda orgulhosos guerreiros zulus e dançavam com escudos e lanças, batendo tão forte o pé no chão que eram capazes de rachar a terra. Tudo isso era impossível agora. Não havia mulheres para acompanhar o canto, e o som da dança guerreira incomodaria os homens adormecidos, exaustos pelo trabalho. Foi então que reinventaram a antiga arte, buscando homens que, embora conservando a característica masculina de suas vozes, fossem capazes de cantar a parte do alto, reservada ás mulheres, ao mesmo tempo que reduziam os gestos vigorosos da dança a um esboço delicado, como os movimentos de um gato. Meninos-gatos de poderosos gestos suaves, aqueles que ninguém ouve quando dançam, eis o que significa isicathamiya e o que define o canto e dança que a gente de Kwazulu Natal levou de volta à terra natal, de onde ela ganhou toda a África do Sul. Uma forma sutil, mas eficaz, de resistência, na afirmação de uma identidade própria.

O líder Derrick Mlambo

Filho de uma cultura em que as expressões sensíveis da experiência têm um papel central na sua transmissão e a oralidade é forma de preservação da própria história, Derrick Mlambo se esforça por nos fazer entender em nossos próprios termos o que é essa “música tradicional” que define a arte de seu grupo. Ele cresceu numa família musical como gosta de dizer, na qual o canto era parte indissociável do cotidiano. A comida que uma irmã preparava para toda a família tardava a ficar pronta? Alguém começaria a cantar uma cantiga para lembrá-la que estavam com fome. Cantavam a qualquer hora porque, sem rádio ou televisão em casa, só tinham a música para ocupá-los em alguma atividade. Foi dessa experiência de infância que surgiu a vocação para compor e depois interpretar, com o grupo, a performance tradicional de música e dança de sua gente.

E não há dúvida de que se trata de música e dança de todo tipo e para todas as ocasiões: isishamene, que usa tambores e paus para se cantar e dançar com ele; umbholoho, para celebrar a união de duas famílias num casamento; amahubo, apresentada por gente idosa que já não dança aos saltos como os mais jovens; isicathamiya, cantada e dançada por gente moça, a dizer que ninguém os escuta quando dançam, tão leves são seus movimentos rápidos; a dança dos sangomas, medicine men que curam doentes com ervas e, transportadas pela dança, podem prever o futuro; indramu, música de tambor para entreter as pessoas em qualquer evento coletivo, de congresso de cultura a jogo de futebol; mas também música para traduzir a indescritível exaltação das pessoas quando Mandela se dirigiu pela primeira vez ao povo, após deixar a prisão, em 1991. E até mesmo a shosholoza, uma canção alegre, que Derrick costumava ouvir desde criança, sobre o movimento de um certo trem que ia da África do Sul para Zimbábue, entusiasmando muito as pessoas, que gritavam: “Vai embora, trem!”. Mas por que tanto entusiasmo com um trem?! Segundo Derrick: “Esta é uma canção um pouco política. As pessoas ainda viviam sob o apartheid e usavam o trem de uma certa maneira para chegar ao Zimbábue, quer dizer, os líderes políticos costumavam se esconder nele. Era um trem que transportava carvão. Os líderes não tinham visto para sair do país, então se escondiam debaixo do carvão para que ninguém pudesse vê-los”.

Assim, seria a música que canta e que compõe destinada a fazer entender tudo isso que foi vivido e sofrido por seu povo? Não, esta é uma dimensão circunstancial do seu trabalho, são as condições do seu povo que Derrick Mlambo quer trazer para a sua música: “Entender o nosso passado e o nosso presente nos torna capazes de prever o futuro. O que eles fizeram com os africanos no passado, foi o sistema que os forçou a nos oprimir daquela maneira. O racismo e o apartheid não eram coisas boas. Talvez tivessem houvesse leis que os obrigasse agir assim. A música que eu componho sobre as coisas que aconteceram no passado, as pessoas gostam dela, gostam de entender as coisas boas e más que fizeram conosco. Se você faz algo que toca meu coração, uma coisa boa ou ruim, eu faço uma música sobre isso que possa expressar esse sentimento na música. Mesmo que eu não mencione seu nome, todos irão entender. Quando você compõe uma música sobre as coisas boas ou ruins do passado, você precisa ter cuidado, porque ela deve encorajar a paz e a aproximação das pessoas. Falar sobre o apartheid não é para culpar as pessoas mas para aproximá-las. Isso é que é importante na nossa música”.

Se a música tradicional da África do Sul pode ser chamada a desempenhar essa tarefa, é porque, segundo afirma, ela está sempre ligada a um evento que envolve algum tipo de colaboração. “A nossa música tradicional é chamada ingoma, todas elas são ingoma, e se dividem em diferentes tipos, isicathamiya¸isishamene, amahubo. No caso dos sangomas, não se trata de ingoma, é um tipo de dança, mas é também tradicional”. Mas o que, então, significa esse termo, no vasto repertório de situações e circunstâncias em que uma música ou uma dança podem ser reconhecidas como expressões da “tradição”? “Quando se falamos em tradição, falamos de um modo de vida que era encontrado no povo, no passado”. Mas até onde será preciso recuar no tempo para encontrar as fronteiras desse passado?

“Esse tipo de música fala sobre tudo o que se fazia desde o começo da existência de um grupo particular, de uma tribo. Desde o começo, os zulus tinham suas crenças, seus costumes, embora isso possa mudar com o tempo. Por exemplo, nós não tínhamos maskanda no começo, um tipo de música que é puxada por uma guitarra, mas então as pessoas perceberam que era necessário ser criativo, mas de um modo que nos mostre que estamos ouvindo uma música tradicional. Meu sangue me diz isso. É assim que nós criamos. O sentimento é muito importante. Nós falamos das montanhas, da água da grama, dos animais, das estrelas, da lua, tudo da África, porque a lua tem um jeito de brilhar ali sobre a montanha que você não vê em nenhum outro lugar. Nós criamos galinhas, e ter galinhas em casa dá a você esse sentimento de que é assim que se faz no seu povo. Em outro lugar eu não me sinto em casa, porque não existem montanhas, não existe rio. Ou talvez, se existem, as montanhas são diferentes, a lua é diferente. Na África, nós temos áreas rurais, é muito diferente. A noite é escura como breu, tudo fica quieto, em silêncio, e quando se ouve música ali, sei que estou em casa. A tradição é tudo o que faz parte da sua vida, seu estilo de vida é sua tradição”.

A comparação com a música brasileira

Para Derrick, a música brasileira e a música africana é a mesma coisa. Existem características africanas, é possível sentir influências africanas na música brasileira, é como a música sul-africana, o ritmo, a batida. Mas, se você fala da música tradicional da África do Sul, é outra coisa. A música sul-africana pode ser influenciada por estilos europeus, estilos americanos, mas a música tradicional é diferente. Eu posso tocar música brasileira na África do Sul, mas não a música tradicional brasileira, porque é diferente, ela mexe com o sangue, com a alma do povo brasileiro. Seu cabelo arrepia. Eu não posso fazer meu cabelo arrepiar. A música pode. Isso é música tradicional. Eu ouvi música brasileira. É como ouvir música africana, existem mesmo algumas delas com influência brasileira, mas música tradicional é outra coisa. Ela não admite influências. Está lá no seu sangue.

O Kholwa Brothers que foi formado em 1990 por Derrick Mlambo. Nove membros se reuniram sob a liderança de Derrick Mlambo. A palavra "kholwa" é uma palavra que significa "um crente" em Zulu. Kholwa Brothers cantaram para Dr Nelson Mandela. O Kholwa Brothers participaram no SOMKE FESTIVAL quando o primeiro presidente negro Dr Nelson Mandela estava indo para encontrar as pessoas do Kwazulu Natal, pela primeira vez após a sua libertação da prisão.

O Kholwa Brothers são muito populares pois já participaram de uma série de Festivais Internacionais: Splashy Fen Festival, Standard Bank Jazz Festival, Festival Africano Renaissance, United Nations Conferência Mundial Contra o Racismo, o Festival Internacional de Escritores e Compositores. O Kholwa Brothers cantou no Festival intitulado BRAVO - CHINA - ÁFRICA DO SUL.

Convidado pelo deputado Rob Sayer, The Kholwa Brothers fez uma canção para as crianças do mundo em um projeto internacional chamado "The Lion Collection" Eles fizeram a canção chamada "SHANANANA".

Em 2005 O Kholwa Brothers foram convidados pelo coreógrafo brasileiro Ivaldo Bertazzo a participar da trilha sonora do espetáculo Milágrimas, do Projeto dança Comunidade. Eles permaneceram no Brasil por três meses, de Junho a Setembro de 2005. Trabalharam com Benjamin Taubkin e Arthur Nestrovski, conduzido workshops sobre música e dança africana.

Trechos do livro Tenso Equilíbrio na Dança da Sociedade. Org. Carmute Campello. Texto de Maria Lúcia Montes

Visite: www.kholwabrothers.com


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