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Renata Rosa ganhou o Prêmio da Músca Brasileira 2009

A Circus divide com os dois ou três um momento especial : como já disse aqui, dois artistas representados regionalmente pela gente, concorreram ontem no Prêmio da Música Brasileira 2009, no Rio de Janeiro:
 
O grupo Quinteto Violado, concorreu como melhor grupo de MPB pelo seu último trabalho chamado “Quinto Elemento” (2008). Esse trabalho é totalmente autoral do grupo Quinteto Violado – Circus pretende fazer esse lançamento em São Paulo no segundo semestre de 2009. O vencedor da categoria foi Pedro Luís e A Parede com o disco “Ponto Enredo” (2008)
 
Com o disco “Manto dos Sonhos” (2008) a cantora Renata Rosa recebeu o prêmio de MELHOR CANTORA REGIONAL.
 
Parabéns para a Renata Rosa que adiou sua ida para mais uma turnê na França especialmente para participar da cerimônia e dividimos esse momento com toda platéia desse Picadeiro!

O importante é competir mas ganhar é “bão, sô”!

Rescaldo dos útimos dias

O show da Ceumar com participação do Sérgio Pererê no Sesc Santana alcançou o nível máximo de entrosamento e eu fiquei assim, doidão com o que eles fizeram no palco. E fora dele, o Pererê me alertou para a importância do Michael. Imaginamos um disco de duetos do MJ com o De La Soul, o Stevie Wonder, com o Seal, com a Madona e por aí afora…

A Pina Baush morreu e um pedaço da dança se foi com ela. Preciso perguntar para o Fábio Retti, meu amigo iluminador, como ela era mais de perto. Dizem por aí que a coreógrafa queria levar nosso iluminador embora.

Amanhã (ou hoje) é dia de torcer. Torcer para o Quinteto Violado, para a Renata Rosa que concorrem no Premio da Musica Brasileira 2009 no Rio e torcer muito para o meu timão, não para de lutar!

Fui pra Mococa dar um beijo na mãe que tá lá, firme. Vi a Sum se aproximar e dar um friozinho na barriga voltar pra lá e mostrar meus lindos artistas: Juliana Amaral, Kiko Dinucci e Juçara Marçal e ainda o Otto que vem cambaleando por essas bandas daqui

Viver Sem Tempos Mortos

Fui assistir ao espetáculo da Fernanda Montenegro, Viver Sem Tempos Mortos no Sesc Anchieta, e como logo imaginei, a gente fica vendo a “negona” como quem vê um pelé, um michael jackson, ou outro astro pop.

Na sinopse é dito que “este espetáculo teatral é um monólogo que utiliza como mote a troca de correspondências entre os filósofos franceses Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, ativistas que influenciaram toda uma geração de intelectuais e contribuíram decisivamente para a história do pensamento ocidental”. Mas acho que está incorreta essa informação. O texto me parece mais um apanhado de memórias e não somente a troca de cartas do casal.

O encontro de Fernanda Montenegro com a compilação do pensamento de Simone de Beauvoir é uma ”aproximação junto a essa grande e inesgotável escritora, pensadora e ensaísta, que revolucionou a visão do feminino”.  Fernanda desfaz a imagem que eu sempre tive que a mulher do Jean-Paul Sartre era arrogante e fechada.
 
“Viver Sem Tempos Mortos” oferece uma oportunidade para que a gente se apaixone um pouco mais com Simone de Beauvoir, e se pergunte como é que depois de tanto exemplo de vida e liberdade ainda é possível tanta caretice, tanto fanatismo religioso, tanta intolerância pelo mundo afora.
 
Eu já tinha ficado admirado com a Fernandona quando na quarta-feira, assisti ao projeto “Caminhos da Liberdade” , com entrada franca, foi exibido o documentário inédito “Uma Mulher Atual” (Une Femme Actualle, 2007), de Dominique Grosbate papo com o professor Jorge Coli. O filme é revelador e o professor é didático e sensivelmente apaixonado pela vida e obra do casal existencialista.

A gente sai apaixonado com Simone de Beauvoir e orgulhoso de ter Fernanda Montenegro como uma espécie de rainha do teatro  – que hipnotiza a gente como o faz Roberto Carlos, Pelé – mas um pouco desconfiado com a gente mesmo porque é muito difícil viver sem tempos mortos.

wilson jackson ou michael simonal

Que coincidência foi essa do Michael Jackson morrer bem no dia que o Wilson Simonal morreu?

O Tom Jobim já tinha morrido no mesmo 8 de dezembro do John Lennon, mas a coincidência do Michael Jackson me parece mais simbólica ainda.

Meu limão, Meu limoeiro

A propósito, instigante o que o jornalista Pedro Alexandre Sanches escreveu no blog dele. O texto é grande mas é preciso ser muito Bad ou Rei da Pilantragem para se aguentar nesse mundo

Simonal e a ditabranca (Por Pedro Alexandre Sanches)

O que segue aqui, até que enfim, é uma reportagem 100% inédita sobre a fábula de Wilson Simonal, que anda novamente na moda por estes tempos. Trabalhei nela durante a primeira metade de 2008, mas a dita cuja acabou nunca sendo publicada.

Em linhas gerais, o texto final aqui abaixo é fiel ao que parei de escrever em 22 de julho de 2008. Recebeu alguns acréscimos porque estava inconcluso, mas acréscimos que dizem respeito basicamente a atualizações necessárias e à inserção de mais depoimentos.

Enquanto adicionava tais depoimentos tendo este blog em mente, percebi que alguns deles eu não teria colocado no texto se fosse destinado a algum veículo da “grande” imprensa – não sei se por falta de coragem minha ou se porque não seriam publicados mesmo (bem, nem o texto seria publicado grande assim, não é mesmo?). A propósito, os dois últimos parágrafos não existiam, foram escritos agora.

Será fácil perceber que o título acima não se ajusta perfeitamente ao conteúdo do texto (na imprensa tradicional isso também acontece com frequência). Mas, dados acontecimentos dos últimos dias, não me parece impertinente, e agradeço ao Rick por ter inspirado o insight. E agradeço também à Meire Bottura, pelas maravilhosas capas de revistas e jornais que ela coleciona.

[Apenas dois lembretes, adicionados às 21h40: a) eu não tinha me ligado nisso, mas publiquei este texto neste 25 de junho de 2009, o mesmo dia do aniversário da morte de Simonal; b) cerca de uma hora depois de este texto estar aqui, morreu Michael Jackson, no mesmo dia da morte de Simonal. Como Wilson, Michael sofreu intensamente durante uma parte considerável do tempo que passou aqui. E, negro tragicamente embranquecido, foi-se pouco tempo depois da chegada de Barack Obama.]

E chega de procrastinar, agora vamos lá.

SIMONAL, O BODE

copyleft PEDRO ALEXANDRE SANCHES

1999. Tocou o meu ramal telefônico no quarto andar da redação. Atendi. Era ligação lá de baixo, de uma das recepcionistas da Folha de S.Paulo, onde eu trabalhava. O cantor Wilson Simonal estava no saguão do jornal. Furioso, fora de si.

Pretenso Clark Kent de caricatura, vesti minha capa fajuta de super-herói de araque e desci para conversar com ele. Já que eu era o autor da entrevista que enfurecera um dos dois cantores brasileiros mais populares dos anos 1960 (o outro se chama Roberto Carlos), cabia a mim proteger e defender o jornal, a instituição, o prédio, os proprietários – e, bem, a mim mesmo – contra a (suposta) fera.

O que eu e Simonal conversamos, não faço a mínima idéia. Apaguei da memória, bloqueei. Só sei que não tive a gentileza e a generosidade de convidá-lo para entrar, sentar-se, tomar um café (bem, acho que eu não me sentia mesmo muito “dono” da “casa”…). E que aparei sozinho, ali mesmo no saguão, a emoção e a revolta do artista contra a entrevista que a Folha publicara no dia 21 de maio daquele ano e, de modo bem mais amplo, contra o exílio, o banimento, a morte de corpo presente que o Brasil lhe impunha desde ao menos 1974.

Lembro que, de transtornado no início, ele foi pouco a pouco serenando, ou melhor, deixando-se vencer pelo cansaço de uma situação que se repetia a cada nova entrevista, a cada vez que os jornalistas lembrávamos que ele ainda existia. Não esqueço, e jamais esquecerei, a expressão de desconsolo em seus olhos, do início ao fim da “conversa”.

Naqueles dias, eu, por minha parte, sabia pouco, ou quase nada, sobre tudo que acontecera a Simonal entre 1963 e 1974, hiato que o remeteu da ascensão e da fama absoluta ao mais indestrutível ostracismo. Como outros repórteres antes e depois, tateava a “notícia” (ou a não-notícia?) em “investigações” (investigações?) superficiais, desinformadas, crente de que sabia de tudo, sem saber de nada.

Aquela foi uma das quatro ocasiões de minha vida em que estive diante de Wilson Simonal. Logo depois, fui ao show motivador da reportagem “Proscrito, Simonal tenta cantar em SP”, que ele então estreava no teatro do hotel Crowne Plaza. Ao final de uma sôfrega e melancólica apresentação, fui cumprimentá-lo no minúsculo camarim, e o encontrei abandonado numa cadeira, passando mal, de cabeça baixa, olhando o chão. Aceitou meu cumprimento indiferente, sem esboçar reação.

Havia o visto pela primeira vez numa situação fúnebre, em 4 de fevereiro de 1998, quando fui, a trabalho, ao velório de Silvio Caldas (1907-1998), cantor e co-autor de Chão de Estrelas. Simonal me chamou a atenção porque, apesar de ter sido um ídolo dos anos 1960, vestia-se como cantor de tempos ainda mais idos – terno branco, lenço na lapela e sapato de bico, ou algo parecido (não posso me recordar com precisão). Deixou-me intrigado também porque percebi que eu sabia, mas não sabia, quem era aquela figura extravagante.

Não tinha a menor ideia de que pertencia ao repertório dele em 1967 a píncara pilantragem (Simonal era então o “rei da pilantragem”) Para, Pedro (“esse Pedro é uma parada/ para, Pedro, Pedro, para”), que minha mãe interiorana cantava rotineiramente para mim quando eu era pequeno. Bem, em 1998 nem minha mãe lembrava mais que um dia havia existido um homem chamado Wilson Simonal.

Fúnebre seria, mais uma vez, a derradeira ocasião em que estive perto dele. Foi no cemitério do Morumby, em 26 de junho de 2000, no seu enterro. Morreu aos 61 anos, de falência hepática decorrente de alcoolismo.

Noutras palavras, a morte perpassou todo e qualquer contato que tive com o Roberto Carlos negro, enquanto ele vivia.

2009. Todas essas imagens zanzam por minha mente sempre que assisto ao excepcional documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei, dirigido por Claudio Manoel, o Seu Creysson do humorístico global Casseta & Planeta, em parceria com os jovens Micael Langer e Calvito leal, ex-funcionários da Conspiração Filmes.

O documentário não fornece apenas dados novos sobre a tragédia de erros e a sucessão de abusos que levaram o Frank Sinatra brasileiro (e preto) ao desterro, ao autodesterro e ao desterro outra vez, em moto-contínuo. É precioso, também, porque oferece a primeira oportunidade, desde 1971, de (re)ver Simonal cheio de vida, em movimento, em cores ou em preto-e-branco, em diversas cenas de alto impacto musical.


Para quem, como eu, não viu Simonal ao vivo e em ação, há de ser a primeira chance para chegar perto de entender o poder comunicativo de um cantor-entertainer-apresentador televisivo que condensava, em si, qualidades (e/ou cacoetes) de personagens tão variados quanto Frank Sinatra, Agostinho dos Santos, Sammy Davis Jr., Cyro Monteiro, Ray Charles, Lúcio Alves, Harry Belafonte, Dick Farney, Chris Montez, João Gilberto, Chacrinha, Hebe Camargo, Silvio Santos, Roberto Carlos, Elis Regina, Sergio Mendes, Jorge Ben etc. e tal. De quebra, é senha perturbadora e incômoda para a compreensão um pouquinho menos superficial de um Brasil ditatorial que ainda reluta em se extinguir por completo.

“O filme se chama Ninguém Sabe o Duro Que Dei, mas também poderia ser Ninguém Sabe o Mole Que Dei”, diz Claudio Manoel. O que voltou à tona agora em imagens subsidiadas pela Globo Filmes e pela produtora TVZero (do perfurante documentário A Pessoa É para o Que Nasce) teria feição de drama shakesperariano ou freudiano, ou de tragédia épica hollywoodiana, se não fosse ambientado na chamada “vida real”, aqui no Brasil, poucas décadas atrás.

Não foi ficção, embora pareça fábula. Uma eletrizante história de ascensão e queda levou ao estrelato o garoto pobre que passou por favela, fome e rua, filho de mãe empregada doméstica e pai ausente. Simonal despontou em 1961, e por essa época a rotunda crítica teatral (branca) Bárbara Heliodora foi patroa de dona Maria (negra), que queria ver o filho cadete seguir carreira no Exército e, de início, rejeitava suas atividades musicais.

Na curva de ascensão e queda desse Ziggy Stardust tropical (e preto), o pico aconteceu em 1969, quando, escalado para abrir um show de Sergio Mendes no Maracanãzinho, Simonal papou o dono da noite, perfeitamente sintonizado com uma platéia de mais de 20 mil espectadores. O vale da curva aconteceria em novembro de 1974, quando foi condenado e preso, como numa confirmação definitiva da pecha de delator, disseminada em 1971 a partir do semanário O Pasquim. Entendido como informante da ditadura, foi condenado a cinco anos e quatro meses, por crime de extorsão. Atenção: pela Justiça da mesma ditadura de quem seria colaborador.

Se é ponto pacífico que 1969 foi o ápice comercial do artista, Marcos Valle tem uma história que amplia esse arco. Aconteceu em 1963, quando Valle foi levado a mostrar suas músicas à gravadora Odeon (onde Simonal iniciara trajetória fonográfica). “Quando cheguei à sala do diretor musical, Milton Miranda, ali estavam ele, um outro diretor chamado Ribamar, Roberto Menescal e Simonal”, lembra. “Simonal era considerado naquele momento, pelo que vi, o artista principal, a que estavam dando mais atenção. E estava ali para me ouvir. Como era da moderna música brasileira pediram que fosse me ouvir.”

O jovem Valle se considerava compositor (de bossa nova) e nem pensava em se tornar cantor. Mas Miranda anunciou ali mesmo sua contratação, também para cantar. “Ele disse: ‘Você está contratado’. Meu primeiro susto foi grande. Mas o Simonal foi adiante e falou: ‘É isso mesmo, garoto. Você está contratado’. Quer dizer, ele tinha uma força muito grande ali.”

O sucesso de Simonal começou a se consolidar quando ele deixou de lado o início nos redutos “sofisticados” da bossa e do Beco das Garrafas e partiu para um sólido projeto de popularização e se forjou em relações simbióticas com a política e a polícia da ditadura militar.

Nisso, teve como outra parceira simbiótica e co-protagonista crucial uma personagem quase sempre protegida pela penumbra de auto-imposta invisibilidade, que nem era tão conhecida por este nome no tempo de Simonal, mas hoje chamamos de Mídia, com M grande nem sempre merecido. Foi o conjunto dos meios de comunicação – música, televisão, rádio, jornalismo, publicidade, futebol – que constituiu os tentáculos do polvo Simonal, e enforcou-o (ou amputou um de seus próprios tentáculos) quando, na corcova entre os generais Médici e Geisel, a barra pesou de vez. Vejamos.

1966. Simonal iniciava a etapa mais fulminante de sua ascensão. Apresentava o programa Show em Simonal na então hegemônica TV Record, do qual os progressistas Jô Soares e Chico Anysio eram redatores. Numa cena do documentário, os também progressistas Geraldo Vandré e Gilberto Gil (esse às gargalhadas) aparecem integrados à platéia enlevada de um show em Simonal.

Foi ali que ele se encontrou com o conjunto (inicialmente) samba-jazz Som 3, de Cesar Camargo Mariano, futuro arranjador e marido de uma pupila de Simonal chamada Elis Regina. O primeiro produto dessa associação em LP foi Vou Deixar Cair… , pedra fundadora do estilo pilantragem, sob a retaguarda do comunicador Carlos Imperial (que conduzira os primeiros passos artísticos de Roberto Carlos e tivera como secretários particulares os jovens Simonal e Erasmo Carlos) e do compositor Nonato Buzar. Na capa do LP, o bonequinho Mug aparecia como artefato mercadológico de vanguarda, matraqueado em palcos e telas por Simonal e Chico Buarque, ambos empresariados à época por Roberto Colossi.

Nonato Buzar fala, 43 anos depois, sobre a invenção daquele novo estilo: “Pilantragem é um nome que abomino até hoje. Estávamos eu e Simonal tocando violão, surgiu o estilo, que pertence a mim e a ele. O nome que eu queria era bossa brasileira. O nome não era pejorativo, mas algo me falou dentro que ia ficar pejorativo, tanto que ficou. Pilantra é a pessoa que não presta. Se o nome fosse bossa brasileira, até hoje existiria, porque era um estilo bom, humano, que ressuscitava clássicos da música brasileira sem mudar uma nota sequer do original”.


Ainda em 1966, pop, iê-iê-iê, soul, pitadas de bossa-jazz e doses cavalares de alegria infanto-juvenil catapultaram para o gosto popular Meu Limão, Meu Limoeiro, Carango (dos versos “ninguém sabe o duro que dei/ pra ter fonfom trabalhei, trabalhei”) e Mamãe Passou Açúcar em Mim. E o domínio de Simonal sobre o público ampliou-se entre pilantragens em profusão, como Os Escravos de Jó, Vesti Azul, Nem Vem Que Não Tem (todas de 1967), Zazueira (1968) e País Tropical (1969). Nessa última, criada por Jorge Ben, Simonal encurtava palavras e transformava em jargão nacional o apelido Patropi como sinônimo de Brasil.

Eram os tempos do bordão (e da série de discos) “alegria! alegria!”, que Caetano Veloso tomaria emprestado para cimentar a gênese da tropicália. Um Simonal cada dia mais sorridente, rico e poderoso surfava na marola e definia a tropicália como uma forma de pilantragem. Carlos Imperial tentava rivalizar com o grupo baiano e lançava, em 1968, o disco Pilantrália, creditado à Superior Ordem da Pilantragem Avançada, S.O.P.A. (“nem vem de garfo que hoje é dia de sopa”, ou “de S.O.P.A.”, cantava Simonal desde o ano anterior, em Nem Vem Que Não Tem).

O programa de primeiro aniversário do Show em Simonal ficou eternizado naquele que deve ser o primeiro LP duplo da indústria fonográfica brasileira, primazia mais tarde reivindicada, a bordo dos esquecimentos, por Fatal (1971), de Gal Costa, e até pelo posterior Clube da Esquina (1972), de Milton Nascimento e Lô Borges.

Ouvido hoje, o disco de 1967 espanta. Durante a leitura de um fictício exemplar do Jornal da Tarde no ano 2000, o entertainer celebrava “o imperialismo do samba de breque”, citava o ex-presidente Juscelino Kubitschek (cassado pelo regime militar em 1964) e cutucava a ditadura, não se sabe se com ou sem intenção, ao ler a falsa notícia de que “o prefeito Faria Lima anuncia que ficará só mais seis meses no poder”.

Primor de ambigüidade e ironia, o LP intercalava inflamadas canções de protesto de Vandré, João do Vale e Marcos Valle com slogans e jingles comerciais de Philips, Kolynos, Gilette, Lux e TV Record. Sarcástico, Simonal oferecia duas opções ao ouvinte: “Você precisa confiar nos seus compositores” e “na música brasileira”, ou então “você pode confiar na Shell”.

Fortalecido, Simonal se dava a tais ousadias, e passou a sublinhar o racismo brasileiro em toda entrevista que concedia, e também na tela da TV. Ninguém Sabe o Duro Que Dei coleciona imagens fortes a esse respeito. Na mais leve delas, o cantor aparece num programa caracterizado como Lobo Bobo, junto à “Chapeuzinho” Vanusa. Na mais chocante, lidera uma pantomima em que aparece acuado por uma turba de brancos, enquanto canta: “Minha pele é escura/ e mais negra minha vida/ negro sem cultura/ vai ganhar bebida/ eu sou preto, negro, negro, mas, por Deus, também sou gente”.


O ápice do Simonal anti-racista se deu ainda em 1967, na gravação de Tributo a Martin Luther King (“cada negro que for/ mais um negro virá/ para lutar com sangue ou não”), dele e de Ronaldo Bôscoli. Na entrevista de 1999, me contou (e eu publiquei sem muita noção e com incrédula parcimônia) que a canção lhe rendeu uma das primeiras “visitas” ao famigerado Departamento de Ordem Política e Social (Dops), futuro nicho clandestino de tortura e terror de Estado. “Quiseram censurar a música, alegaram que era racista e que eu estava botando os negros contra os brancos”, afirmou. “Ouvi o que o censor falou. Falou, falou, falou, ah, porque o ambiente artístico, não sei o quê.”

1969. Em julho, pouco depois da primeira consagração no Maracanãzinho, o artista foi a estrela da edição nº 4 d’O Pasquim, que nos primeiros tempos parecia ambiguamente fascinado pelo ídolo negro. A chamada daquela edição era “Simonal: ‘Não sou racista’ (Simonal conta tudo)”. A anárquica patota, formada por Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral (pai do atual governador do Rio de Janeiro) e Pinheiro Guimarães, o entrevistou em tom jocoso, e insinuava que, sim, ele era racista. “A imagem pública que se tem de você é a do cara que está tranqüilo e que tem mordomo que acorda você às duas da tarde, com caviar etc.”, contra-atacava Tarso.


Ainda assim, o tablóide propagandeou à farta o filme É Simonal, de outro membro da turma, Domingos de Oliveira. Construída como uma versão negra dos filmes de matinê de Roberto Carlos, a produção implodiria em 1971 diante do início da derrocada do protagonista. Esta reportagem procurou Domingos, que se declarou “suspeito para opinar sobre esse assunto” e mais preferiu não falar.

“O público pagou, alguém tem que morrer”, Simonal profetizava na chanchada meio autobiográfica, até hoje semi-inédita. “Eu convivia com os caras do Pasquim. Era um porre, eles brigavam tanto entre eles”, me disse o cantor na entrevista de 1999. Por favor, peço atenção, este ponto é importante, embora eu não tivesse bagagem para percebê-lo dez anos atrás: “Eu convivia com os caras do Pasquim”.

Na esteira do Maracanãzinho, o cantor assinou contrato de vulto para ser garoto-propaganda da Shell. O patrocínio a Simonal se misturava com o patrocínio à seleção brasileira da Copa de 1970: a Shell o levaria ao México com seu grande amigo Pelé e cia., ele na condição de cantor oficial do Brasil na competição.


Na imprensa, Simonal aparecia ao lado do “gerente de comunicações e marketing” da Shell, João Carlos Magaldi, futuro diretor da Central Globo de Comunicações. O Jornal da Tarde noticiou o acordo, em 17 de setembro de 1969, como “o mais fabuloso contrato de publicidade já assinado” – se hoje certa cultura brasileira é fortemente subsidiada pela Petrobras, naquele tempo a música de Simonal já era, em parte, subproduto do petróleo.

Magaldi fora um dos vértices da agência publicitária Magaldi, Maia & Prosperi (MM&P), que em 1965 esculpiu a coqueluche nacional do programa Jovem Guarda, comandado por Roberto, Erasmo e Wanderléa na Record. Reza uma entre várias lendas que Carlito Maia, funcionário da Globo a partir de 1974 e futuro fundador do PT, extraíra o nome de batismo “jovem guarda” de uma frase do líder socialista russo Lênin. Carlos Prosperi, o outro publicitário da trinca, seria um dos fundadores d’O Pasquim, lançado em junho de 1969. Segundo escreve Jaguar no primeiro volume da antologia do tablóide, editado em 2006, O Pasquim foi gestado “na casa do Magaldi, diretor da TV Globo”.

A montagem das peças desse jogo de xadrez tira o chão da versão maniqueísta da história, quase sempre predominante, de que a origem dos anos de chumbo de Simonal estaria na oposição inegociável entre ele, à direita, e o exército d’O Pasquim, à esquerda. De Simonal e Roberto Carlos a Ziraldo e Jaguar, de homens de negócios e publicitários a jornalistas e músicos, de esquerdistas a direitistas ou “apolíticos”, todos eram filhotes da mesma ninhada (não custa repetir, Simonal dividira até empresário com Chico Buarque, futuro herói vitalício da esquerda). Em depoimento ao documentário, Jaguar parece desenhar instintivamente essa conclusão, ao afirmar num riso tristonho, diante de uma garrafa de cerveja Jaguar: “Ele morreu de cirrose, podia ter sido eu”.

1970. Começava a se desenhar o enredo intrincado que culminaria no grande cisma e no coroamento (e autocoroamento) de Simonal como bode expiatório prefererencial da “elite pensante” brasileira, num arco que apanharia todo o espectro ideológico. No meio do ano, faturamos o caneco no México, e o presidente Médici ganhou fôlego ilimitado para galvanizar a retórica radical do ufanismo pelo “Brasil grande”, “ame-o ou deixe-o”.

Em outubro, o V Festival Internacional da Canção (FIC) serviria de plataforma para uma ascendente Rede Globo transmitir imagens do “Brasil grande” para o planeta. Médici orquestrava o coro dos contentes, em entrevistas coletivas à imprensa internacional e em foto cumprimentando o vencedor da etapa nacional do festival, Toni Tornado, cantor (negro) de BR-3. Os compositores da canção vencedora eram Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, também autores (brancos) de um dos maiores sucessos de Simonal, Sá Marina (1968). Mas, poses fotográficas à parte, alguma coisa fugia ao controle do ambíguo consórcio verde-amarelo Globo-ditadura.


Inesperadamente, a bandeira brasileira se tingia de preto. Um tufão black power varria o FIC, e não era só Toni Tornado com o símbolo dos Panteras Negras desenhado no peito nu e namorando às escondidas uma das apresentadoras do festival, a atriz (e loira) Arlete Salles. Outro tornado no V FIC era Erlon Chaves, maestro (negro) ligado a Simonal, a Elis e à Globo e um dos contratados da Simonal Produções Artísticas, a mais nova empreitada do rei da pilantragem. Namorado eventual da ex-miss Brasil (loira) Vera Fischer, Erlon regeu uma interpretação anárquica de Eu Também Quero Mocotó, do soft-black Jorge Ben, à frente de um grande coral vestido em batas africanas.

Na etapa nacional, o Mocotó de Erlon Chaves conseguiu apenas a sexta colocação. Mesmo assim, foi convocado a se reapresentar na final internacional. Dessa vez, mulheres seminuas (brancas e louras) se integraram ao número, rodeando o maestro e cobrindo-o de beijos, para escândalo da face mais conservadora da sociedade, aí inclusas esposas de generais ancorados em Brasília. Na memória de um dos músicos presentes no palco, João Parahyba, do então nascente Trio Mocotó, a rebeldia foi além: alguns dos integrantes do coro teriam levantado suas batas sem mais nada por baixo, exibindo as bundas ao vivo, em cadeia internacional. Não se conhece registro visual do incidente, e Parahyba parece solitário na lembrança desse detalhe.

Poucos dias depois, Erlon deveria repetir a apresentação a pedido do apresentador Flávio Cavalcanti, em seu programa dominical na TV Tupi. Foi preso antes que o fizesse, como conta Flávio Cavalcanti Jr., hoje diretor da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert): “Erlon estava ensaiando, chegaram policiais sem farda. Tiraram ele do chão literalmente, encapuzaram, jogaram numa Veraneio. Ficou num batalhão quatro ou cinco dias, e depois soltaram”.

Cavalcanti Jr. nega a versão de que Erlon tenha sido maltratado na prisão. “Deram um susto nele. Não sofreu tortura, nem entrevista, inquérito, nada. Mas ficou muito apavorado, saiu de lá arrasado, querendo ir embora do Brasil.” De um modo ou de outro, todos os “vitoriosos” daquele FIC perderam o rebolado diante da pesada repressão que se abateu sobre o súbito levante black, ao qual naquele momento até os branquelos Ivan Lins e Wanderléa aderiram.

Ivan, outro contratado da Simonal Produções, emplacou O Amor É o Meu País como vice-campeã da fase nacional do V FIC. Mas a canção despertou discórdia à esquerda, pela ambigüidade exprimida pelo artista iniciante, meio perdido entre o soul inofensivo de amor e a adesão ao “ame-o ou deixe-o”. “A repressão e a censura estavam muito violentas. A classe pensante estava totalmente desorientada. E os militares se apossaram de nossos símbolos – bandeira, hinos, cores, até a palavra ‘país’. Sofri muito com a patrulha. Parei de cantar a canção”, diz hoje Ivan, que, no entanto, conseguiu aos poucos driblar a patrulha e se reinventar.

De resto, a carreira musical de Tornado foi abortada, ou se auto-abortou, no nascedouro (ele se tornaria mais tarde ator de novelas da Globo). “Estavam com medo que ele fosse um líder negro que pudesse insuflar a massa negra, causar a turbulência nacional”, diz Tibério Gaspar.

Antonio Adolfo afirma que só recentemente tomou consciência das implicações comportamentais, raciais e políticas em que sua BR-3 esteve envolvida – quando leu A Era dos Festivais – Uma Parábola (Editora 34, 2003), de Zuza Homem de Mello. “Eu não tinha consciência de black power, talvez Tibério tivesse”, diz. “Tinha a coisa do Martin Luther King, os Panteras Negras, mas eu nem sabia que aquele símbolo que o Toni usava era dos Panteras Negras. Para mim era coisa de índio.” Mas observa: “Jorge Ben saiu ileso daquilo tudo, é engraçado. Até Jair Rodrigues foi perseguido. Elis Regina teve que fazer média para não ser presa, lembro dela fazendo propaganda para o Exército”.

Tibério demonstra que, de fato, tinha maior consciência: “O black power começou a aparecer com a gente. Fui chamado no SNI, interrogado por quatro coronéis. Havia um dossiê meu, esquerda, fichário, negócio meio grave, eu quase dancei mesmo”. Segundo ele, o colunista social Ibrahim Sued, d’O Globo, teria espalhado a seguir a falsa informação de que BR-3 era, na verdade, uma canção sobre drogas, sobre injetar heroína na veia.

Em 1970, a turma d’O Pasquim também entrou na dança. Em novembro, logo após a publicação de uma charge de Jaguar na qual D. Pedro I aparecia gritando “eu quero mocotó!!” às margens do Ipiranga, quase toda a redação foi em cana. Como expôs a historiadora Beatriz Kushnir no livro Cães de Guarda – Jornalistas e Censores, do AI-5 À Constituição de 1988 (Boitempo, 2004), adiante o governo plantaria agentes dentro da redação para fazer a censura prévia da produção d’O Pasquim. Um deles era o general Juarez Paes Pinto, pai de Helô Pinhero, a “garota de Ipanema” eternizada em música e letra por Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Numa relação que poderia surpreender os mais maniqueístas, o censor privava do convívio com os jornalistas, dava conselhos e os chamava de “meus meninos”.

Eminência parda do VI FIC, Simonal via pela primeira vez à sua frente uma maré desfavorável. Segundo defende Toni Tornado em depoimento ao documentário, a virada da maré começara um ano antes, na apresentação com Sergio Mendes no Maracanãzinho: “Foi aí que ele arrasou, foi aí que ele causou a tal da inveja, foi aí que começou a bronca”.

“Ele fazia o jogo, era submisso. Não tinha visão política. Temiam que Toni Tornado tivesse”, opina Tibério. “Mas Simonal ficou ameaçado. Era o maior cantor do Brasil e estava prestes a deslanchar uma carreira internacional. Era a bola da vez.”

De fato, 1970 poderia ter marcado o início da internacionalização de Simonal, se o pássaro negro não acabasse abatido em pleno vôo. Stevie Wonder abria seu show naquele ano cantando Sá Marina em inglês, com o nome Pretty World (está gravada em Stevie Wonder Live, 1970). E esteve com ele aqui no Brasil, como lembra o filho mais velho do homem, Wilson Simoninha: “Houve um almoço para ele, eu me lembro porque era um cego andando ali pela minha casa. Miele e Ronaldo Bôscoli falavam que à noite eles fizeram uma jam que foi até o dia raiar, meu pai, Elis e Stevie Wonder”.

No mesmo ano, em visita ao Brasil, uma Sarah Vaughan embevecida (e negra) duetou com Simonal na TV, em imagens entortantes, de emocionar, recuperadas em Ninguém Sabe o Duro Que Dei. Ao mesmo tempo, a atriz louríssima Brigitte Bardot, também cantora bissexta, regravou Nem Vem Que Não Tem em francês, como Tu Veux Ou Tu Veux Pas.

E houve mais. Ainda em 1970, também veio ao Brasil para o V FIC o maestro Quincy Jones, futuro dínamo por trás do estrondo de Thriller (1982), de um certo Michael Jackson. Diz Simoninha: “Eu não me lembro, mas sei que Quincy ficou aqui com Simonal. Saíam direto. Sempre ouvi meu pai dizer que um dos motivos para sua saída da Odeon foi que a gravadora não quis fazer um disco dele com Quincy. Ficou puto”.

Simonal, o derradeiro disco pela gravadora onde se construíra, saiu em dezembro, pela primeira vez dissociado do imaginário da pilantragem. Mesmo sob a barra pesada do FIC, Simonal pisava dessa vez no acelerador do black power. O funk-baião Destino e Desatino de Severino Nonô na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (Oh Yeah!), de Renato Luiz, soava agressivo no limite da grosseria, explorando as peripécias de um astro pop ultracomercial nascido “no bairro de São Caetano, cidade de São Salvador”, que “foi pro Rio levando a gaytarra e a fome” e fez fama americanizada “cheio de renda e babado e cabelão de mulher”. À época, a minoria negra e a minoria homossexual não tocavam na mesma banda (hoje tocam?).

O soul Moro no Fim da Rua, de Luis Vagner e Tom Gomes, é outro que retroativamente soa profético, pela letra e pelos gritos de Simonal ao final, “I don’t want to be alone”. Gomes, hoje jornalista ligado à indústria fonográfica, conta a história: “Luis Vagner morava no Solar da Fossa, no fim da rua. Era uma república maravilhosa, de jornalistas, artistas plásticos. Lá moravam Caetano Veloso, Gal Costa, Paulo Diniz. Luis começou a música, ‘moro lá/ no fim da rua onde tudo é escuro demais/ escuro demais’, e eu completei. Mas não houve preocupação nossa de fazer para o Simonal. Depois é que ele gravou, para minha felicidade”.

O solo de guitarra em Moro no Fim da Rua era do futuro astro samba-soul Hyldon, que assim remete à “alienação” política de sua turma e à derrocada de Simonal: “Aquela história nunca me convenceu, mas era só intuição. ‘Dedo-duro’ todo mundo falava, quer dizer, a galera da zona Sul falava, o pessoal da MPB. Na galera da jovem guarda, do rock, no meio artístico mais popular isso passou batido. Todo mundo continuava gostando e admirando Simonal”.

Outra faixa notável do LP de 1970 é Deixa o Mundo e o Sol Entrar, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, um ataque à monogamia e à prisão do casamento, pura contracultura, de linguagem até hoje avançada. Transtornado em black power à brasileira, pronto para o mundo, foi aí que Simonal abortou. Como? Por quê?

1971. O astro começou o ano participando de um novo programa da Globo, o Som Livre Exportação, liderado por Elis Regina e Ivan Lins. “Naquele começo dos anos 70, quando entrou o Garrastazu Médici, nosso Pinochetzinho, a barra estava muito, mas muito pesada”, lembra Ivan. “Havia muito medo no ar. Em janeiro, começou o programa. Pelo tamanho da censura que rolava dentro da Globo, a ‘exportaçao’ bem que poderia ser traduzida por ‘exilio’. Chegamos a conversar algumas vezes nos bastidores, e Simonal era totalmente apolítico. Não queria saber do que acontecia por trás do pano. Eu também, nessa época, não sabia direito.”

Em questão de meses, Simonal seria um dos exilados, sem nem precisar sair de casa. Em 24 de agosto, o cantor migrou da música de diversão para o noticiário policial. Teria descoberto um desfalque na Simonal Produções e suspeitado de Rui Brizola (então sócio de Magaldi e futuro vice-presidente da Traffic Sports) ou de Rafael Viviani, funcionário da empresa. Com a aparente conivência e o carro de Simonal, Viviani foi seqüestrado, levado ao Dops e torturado, numa seqüência de eventos comandada e/ou testemunhada por dois, ou três, ou quatro, ou mais agentes do órgão, todos supostamente “amigos” do artista.

No Correio da Manhã do dia 29, surgiram informações de que Viviani fora “espancado e seviciado com choques elétricos numa dependência policial”, em reportagem aparentemente fundada num depoimento do cantor à policia – pois ninguém entrevistou Simonal naqueles dias. No depoimento, o cantor teria dito sofrer ameaças anônimas por telefone de pessoas que se diziam terroristas, e que “o que os terroristas querem é meu dinheiro para financiar seus movimentos”. (O documentário reencontra Viviani nos anos 2000, numa periferia paulistana, em frangalhos. Ele corrobora a tortura, e interpreta as declarações do ex-patrão à polícia como motivadas pela orientação de advogados.)

Numa lufada de vento, o garoto-propaganda de Médici, do Patropi, do “Brasil, ame-o ou deixe-o” ganhava as folhas policiais como protagonista de uma trama feita de vários temas-tabu, daqueles que a ditadura dava os dois braços, esquerdo e direito, para manter trancafiados no porão. À esquerda, subversão e terrorismo. À direita, tortura e choques elétricos numa dependência policial.

Em setembro, O Pasquim publicou o desenho do “magnífico” dedo indicador apontado de uma mão pintada de preto, e acrescentou: “Como todos sabem, o dedo de Simonal é hoje mais famoso do que sua voz”.

João Parahyba, que estivera no México com Simonal e naquele período tinha seu Trio Mocotó apadrinhado pelo Pasquim, avalia: “Adoro Jaguar, Millôr Fernandes, Paulo Francis e Henfil, mas Jaguar foi foda com Simonal. Dedo-duro era o cacete. O Pasquim pôs na frigideira, era um prato feito. Serviu talvez de informação nanica para a grande network acabar com a raça de Simonal. Foi para a boca do povo, porque informação mal dada passa de um para o outro”.

Assessora de Flávio Cavalcanti nos anos 1970, a jornalista Léa Penteado formulou uma versão mais incendiária para o caso, na biografia do apresentador que lançou em 1993. “Só depois de muitos anos (Simonal) soube, através de amigos, que o dinheiro desviado por Viviani era repassado a Dulce Maia, irmã do publicitário Carlito Maia, conhecida militante de esquerda, com o objetivo de financiar guerrilhas”, Léa escreveu e publicou em Um Instante, Maestro! (Record).

Ligada a Carlos Lamarca, Dulce foi torturada e banida do país em 1970. “Esses dados foram extraídos de uma entrevista que fiz com Simonal, em 1991 ou 1992”, me contou em 2008, Léa, então secretária de Cultura de Santa Cruz Cabrália (BA). A hipótese que lançou até hoje não foi comprovada. Nem tampouco foi testada ou investigada, seja na imprensa ou noutro canto.

Furioso até hoje com o que classifica como “inveja” contra Simonal, Nonato Buzar (à época compositor de trilhas de novelas da Globo) joga a esmo mais alguns tijolos no muro inconcluso. Sobre o momento em que o parceiro descobriu o suposto desfalque, ele diz: “Simonal foi procurar o Rui Brizola, e não encontrava. Todo mundo tem amigo detetive, da polícia, quem não tem? Foram procurar o Rui em vários lugares, inclusive na casa do Carlito Maia, e lá encontraram coisas subversivas. Eu fui preso três vezes, porque era fundamentalmente contra a ditadura, sempre fui. Simonal nunca nem pensou nisso. Prenderam ele, aí disseram que caguetou o Carlito. Ele caguetou sem querer”.

Nonato diz que não quis dar depoimento em Ninguém Sabe o Duro Que Dei, e explica a razão: “Porque eu tenho medo de mim”. Não é só ele, ao que tudo indica. O codiretor Calvito Leal explica ausências célebres no documentário: “Vários caíram por causa de data, vários não responderam, alguns não toparam. Jorge Ben Jor não deu resposta, Roberto Carlos também não. Nunca era diretamente ‘não quero participar’, era ‘preciso ver’. Tem uma coisa horrível, ninguém gosta de chutar defunto. Mas nunca existiu uma pessoa que levantasse bandeira contra o Simonal, era sempre à boca pequena. Não existia o anti-Simonal”. (Não são só os contrários que se calam sobre as desventuras de Simonal, como faz transparecer uma história contada por seu filho caçula, o hoje músico Max de Castro: “Em 1986, fui com meu pai a um show de Roberto Carlos no Maracanãzinho. No final, a gente foi lá atrás. Quando Roberto viu meu pai, ficou emocionado. Veio, se abraçaram uns 15 minutos chorando sem falar palavra. Trocaram uma frase, Roberto foi embora”.)

Léa Penteado interpreta as relações de Simonal com o trio Magaldi-Prosperi-Maia: “Os publicitários viram nele, com todo o sucesso de comunicação, um ótimo garoto-propaganda. Creio que houve muita ingenuidade do Simonal e de todos os artistas daquela época, que não estavam preparados para ganhar tanto dinheiro e ter tanta fama em tão pouco tempo. Não havia profissionais no mercado para assessorar. E até hoje, mesmo tendo ótimos profissionais, às vezes tem alguém que passa a perna no mais fraco”.

Simonal morreria culpando os ex-parceiros comerciais pelo desterro que ele, afinal, também foi responsável por provocar. Passou a acusar Magaldi de tê-lo roubado e a classificá-lo como responsável por barrar qualquer acesso dele à Globo, já que o publicitário virara um dos todo-poderosos da rede, o homem por trás do “plim-plim” da então autoapelidada “Vênus Platinada”. Magaldi, Maia e Prosperi morreram sem jamais contar em público suas versões para o grande cisma.

As imbricações desses personagens com a Globo explicariam a completa ausência de referência a eles num filme que leva o carimbo da Globo Filmes? Cláudio Manoel sustenta que não: “Quando fomos direto ao Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho), o resto virou subtema. O Boni é mais a Globo que o Magaldi. Os filhos dele não quiseram dar a versão deles. Ia desequilibrar, botar no morto uma das possibilidades”.

Em 1999, quatro dias após minha entrevista com Simonal, o Painel do Leitor da Folha publicou a seguinte carta: “Somos filhos de João Carlos Magaldi, maldosamente mencionado pelo senhor Wilson Simonal na entrevista publicada em 21/5. É uma atitude covarde acusar uma pessoa que não pode se defender, pois já está morta. Onde estão as provas de que o nosso pai roubou o sr. Simonal? A história profissional de nosso pai mostra a sua preocupação social, a sua ética e o quanto valorizava o ser humano. Essa tentativa do sr. Simonal de retomar a sua vida profissional denegrindo a imagem de várias pessoas, inclusive de nosso pai, demonstra sua mesquinhez e seu verdadeiro caráter.” Era assinada por Álvaro B. Magaldi e Monica Magaldi Suguihura, que também tentei contatar em 2008, sem qualquer sucesso.

1972. A partir do início do ano, o ex-soberano da pilantrália desapareceu do noticiário, fosse o musical ou o policial. O muro de concreto se erguia rapidamente ao seu redor. Na beirada do abismo, surpreendentemente, foi contratado pela Philips, a mesma gravadora que fomentava Chico Buarque, Caetano Veloso, Elis Regina, Jorge Ben, Gal Costa, Tim Maia, Raul Seixas, Rita Lee e dezenas de outros nomes da linha de frente da MPB, sob a direção do francês André Midani, outro personagem de quem Simonal levaria mágoas profundas para a eternidade. “Fui seduzido por um sujeito que veio para acabar”, me disse em 1999, referindo-se ao ex-presidente da gravadora.

No final de 2001, entrevistei Midani para a Folha e perguntei sobre Simonal. Ele afirmou que era “penoso dizer”, mas havia contratado o artista a “pedido” de uma “pessoa muito importante” do governo militar. “Tive que ir artista por artista, entre os mais importantes, explicando que ia ter que contratar o Simonal. Claro, não era um bichinho amado na companhia”, afirmou.

“Toda a MPB, sem exceção, o boicotou. Foi caça às bruxas, um macartismo brasileiro. Tem gente muito pior que ele, que passou em brancas nuvens”, protesta hoje João Parahyba. Max de Castro afirma que a mitologia da queda do pai “foi boa para todo mundo”, da esquerda à direita. “Os que não gostavam dele finalmente se viram livres. Para artista que não era engajado e era alienado foi bom, porque esqueceu a própria covardia”, diz. “Para artistas de esquerda foi bom porque isso dignificou mais ainda a luta deles, que sobreviveram mesmo apesar das delações de suas atividades.”

Procurei Midani novamente em 2008, mas ele se esquivou de nova entrevista acrescentou apenas alguns pontos dispersos, por e-mail: “Que Simonal freqüentava o pessoal do Dops, freqüentava. Ele devia gostar de frequentar ‘os homens’, certamente lhe dava uma gostosa sensação de poder, e disso ele gostava. Que não consta nos arquivos do Dops nenhuma referência a denúncias que ele teria feito sobre seus colegas, não consta. E a gente nunca ouviu dizer: ‘Fulano foi posto em cana por causa de uma denúncia do Simonal’. Que ele mandou dar uma surra no contador, não tem a menor dúvida, e, como ironiza Jaguar, talvez o contador merecesse receber uma surra”.

Midani também trouxe Magaldi à baila: “Há uma pessoa que, me parece, poderia ter trazido importantes informações, e essa pessoa era Magaldi, que não está mais conosco. Era sócio do Simonal e, conseqüentemente, teria sido também roubado. A gente nunca ouviu nenhum comentário de sua parte, e no entanto foi Magaldi que deflagrou a campanha contra o ‘dedo-duro’ Simonal”.

Meses mais tarde, entrevistei pessoalmente o ex-diretor da Philips, por conta do livro que ele estava lançando, e voltamos ao assunto. Num trecho até hoje inédito da entrevista, Midani prosseguiu um pouco mais: “A história que conheço, a mais sem gordura, é que Simonal era o rei do país, e foi lá na companhia, e não havia um puto de um dinheiro para ele. Quis saber, chamou lá uns caras do Dops, uns polícias, ‘vão dar uma surra no contador’. Deram uma surra no contador. Você diz, que horrível, deram uma surra no contador. Mas há outros aspectos a considerar. Simonal era um menino completamente ignorante. O dinheiro dele desaparece, ou pelo menos não aparece, não vou dizer que eu faria a mesma coisa, mas entendo uma pessoa de educação muito primária dizer ‘filho da puta, dá uma surra e vamos ver o que é’. E deram uma surra”.

E voltou a ressaltar, de modo mais ou menos enigmático, o que parece considerar o cerne da questão: “O sócio de Simonal quem era? Era o Magaldi. Mas por que Magaldi ficou tão ofendido com a não-pureza política do Simonal? Simonal não era nem de um lugar nem era do outro. Para ele qualquer coisa estava bem. Então o que eu imagino é que tem um pedaço importante dessa história entre Simonal e Magaldi que nunca foi contado, e que só eles dois sabem”. Sabem, mas estão mortos.

Na Philips de Midani, um Simonal já fortemente marginalizado gravou mais três discos entre 1972 e 1974. Caíram em completo vazio, e até hoje não foram observados com atenção ou pelo menos curiosidade (permanecem inéditos em CD). No álbum de 1973, batizado com o hermético nome de Olhaí, Balândro… É Bufo no Birrolho Grinza!, Simonal introduzia em meio a uma roda de samba uma enigmática frase: “Eu vô batê pa tu batê pa tua patota”.

1974. O mote seria glosado com grande sucesso popular no samba-rock Vô Batê pa Tu, interpretado por Baiano & Os Novos Caetanos, ou seja, pelos humoristas Chico Anysio e Arnaud Rodrigues, fantasiados de baianos caricaturais. Os autores de Vô Batê pa Tu eram Arnaud e Orlandivo, e a letra dizia que “é papo de altas transações/ deduração/ um cara louco que dançou com tudo/ entregação do dedo de veludo/ com quem não tenho grandes ligações”.

O samba-roqueiro Orlandivo explica para confundir, ou confunde para explicar: “A letra era do Arnaud. Acho que ele fez em cima de coisas derivadas de drogas. Há várias dimensões de desconfiança de que podia ser sobre Simonal, ou de que tinha a ver com droga. Mas onde eu andava achavam que Vô Batê pa Tu pegou em cheio no Simonal. Arnaud só ria quando a gente conversava sobre isso”. Não sei explicar por que, mas não cheguei a procurar Arnaud Rodrigues.

Autor gravado por Simonal em 1964 e 1965, Orlandivo evoca uma lembrança dos tempos pré-fama do cantor. “Pouca gente sabe, mas antes de cantar ele trabalhava numa firma de cobrança de cheque sem fundo. Cobrava cheque em bar e restaurante. Depois o cara se torna sucesso, e era o cara que cobrava cheque sem fundo. Na minha cabeça, acho que isso deu margem a outras coisas, ‘esse cara me cobrou diante de todos os meus amigos’”, especula.

Tibério Gaspar, candidato a vereador carioca à esquerda, pelo PC do B, em 2008 (com 388, não se elegeu), adentra nos temas espinhosos da delação e do colaboracionismo: “Era uma época infeliz, um regime de exceção. Não se pode raciocinar com regras de estado de direito em estado de exceção. Os militares exigiam muitas posições, ou você estava a favor ou estava contra. Valia para pessoas e para firmas. Falar que o César de Alencar era informante? Ele tinha programa estourado na Rádio Nacional, todos iam cantar lá. E a Rede Globo, não foi o porta-voz da ditadura, não passava o Amaral Netto enquanto matavam gente no Araguaia? Não eram cúmplices também? Simonal foi o menor mal”.

Depois de três anos de sumiço do olho público, o ex-rei da pilantragem voltou aos jornais de modo dramático, em 13 de novembro de 1974, ao ser condenado pelo juiz João de Deus Lacerda Mena Barreto a cinco anos e quatro meses de prisão, mais um ano de internação em colônia agrícola. Amigo íntimo do cantor e homem que se dizia de esquerda, Chico Anysio prestou-lhe amparo, e é até hoje seu ferrenho defensor, como se pode constatar no documentário.

O noticiário daqueles dias foi dos mais desencontrados. Informações picotadas davam conta de que a condenação ocorrera pela madrugada, sem a presença do réu. Declarações do cantor só apareceram no jornal Última Hora, onde Carlos Imperial era colunista. “O delegado Sérgio Fleury é meu chapinha e tudo vai correr dentro do figurino”, teria dito Simonal. Sérgio Paranhos Fleury, sanguinário delegado do Dops, chefiara a captura e morte de Carlos Marighella, em 1969. Antes, fora segurança da TV Record e de Roberto Carlos, no auge do Jovem Guarda.

Dois supostos agentes do Dops, acusados de terem participado da captura e tortura de Viviani, foram condenados à mesma pena. O Globo os apresentou um como “industrial trabalhando em torrefação de amendoim”, outro como “vigia de um departamento do Estado”. Estavam foragidos, e não se leu na imprensa notícia sobre a prisão dos dois.

Mas foi absolvido um outro personagem, Mário Borges, descrito nos jornais ora como “inspetor do Ministério da Indústria e Comércio”, ora como “chefe da Seção de Buscas Ostensivas do Dops” e, portanto, suposto chefe dos agentes punidos. Era invariavelmente apresentado nas reportagens como “amigo” de Simonal.

Talvez não fosse bem isso. Segundo o livro de Léa Penteado, Borges era segurança pessoal de Simonal. Segundo a autora, Borges teria acusado o “patrão” de informante tentando se livrar e justificar o fato de trabalhar como segurança nas horas vagas – como talvez aconteça até hoje, entre poderosos à procura de proteção e policiais à procura de bicos complementadores de salário. Na sentença, parcialmente reproduzida n’O Globo, o juiz afirmava que o próprio Simonal se definira como informante do Dops, e usava o “fato confirmado” como ponto de apoio para condená-lo.

Ou seja, um juiz imerso nas entranhas da ditadura condenava o réu famoso, entre outros motivos, por ser informante da… ditadura. Mas fazia malabarismos para absolver Borges, presumido executor da infração, e engavetava o termo “tortura”. Compreende?

Quaisquer que fossem as relações reais de Simonal e Borges com a ditadura, aparentemente ele e seu “amigo” tentavam jogar a batata quente um na mão do outro. Ela terminou na mão de Simonal. E não era batata quente, e sim uma banana de dinamite, cuja explosão terminaria de soterrar o cantor então já repudiado nos círculos de músicos e jornalistas aos quais antes pertencera. A ditadura, que tanto gostara de se colar à imagem de Simonal, enfim abandonava o bode expiatório ao próprio azar. “Culpado”, ele pagaria pelos próprios erros e abusos, mas também pelos de uma legião de “inocentes”.

Condenado, Simonal entregou-se imediatamente. Viajou de São Paulo ao Rio e foi apanhado na pista do aeroporto, sem passar pelo saguão. A polícia, segundo a imprensa, queria evitar qualquer pronunciamento do cantor. Pergunta até hoje nunca respondida (ou formulada): por quê?

Sem acesso a Simonal, o jornalismo papagueou versões a granel, menos a do réu. No dia 13 de novembro, o cantor chegou para ouvir a sentença do juiz segurando um exemplar do livro Universo em Desencanto, que naquele momento fazia as cabeças de Tibério Gaspar e Tim Maia, ou melhor, Tim Maia Racional. Presentes, Flávio Cavalcanti, Erlon Chaves e Agnaldo Timóteo choraram abraçados ao condenado.

Cavalcanti Jr. narra os acontecimentos do dia seguinte: “Sei que era dia 14 porque haveria eleições no dia seguinte, 15 de novembro de 1974 (a data marcou o primeiro grande revés eleitoral da ditadura militar). Íamos subir para a casa de Petrópolis, e Erlon me disse que ia comprar uns discos para levar para Simonal na prisão. Teve um infarto e morreu na loja de discos”. Entre as módicas declarações de Simonal que surgiram nos jornais nos dias seguintes, estava esta: “Ele morreu por minha causa”.

Após 12 dias, o cantor-presidiário foi libertado por habeas corpus e, num segundo julgamento, teve a pena abrandada (pelo mesmo juiz Mena Barreto, segundo Léa Penteado) para seis meses de detenção, que cumpriu em liberdade. Morreria se queixando de que a imprensa nunca publicara uma linha sobre o depoimento de um tal inspetor Vasconcelos, chefe de Borges, que teria desmentido a condição de “informante” do cantor.

Seguiu feito morto-vivo, num calvário de discos e shows ignorados pela mídia, quando não reportados só como pretextos para que os jornalistas abordassem a pena perpétua informal – como foi o caso de minha entrevista em 1999. O Brasil se tornou sua prisão domiciliar a céu aberto, e nós, os “inocentes” (e/ou cegos, surdos e mudos), vestimos a carapuça de carcereiros vitalícios do “vilão” oficial da nação.

Mesmo que tenha sido colaborador ou informante da ditadura em alguma instância, Wilson Simonal de Castro morreu sem conseguir compreender por que jamais foi perdoado. Afinal, o perdão (se é que cabe esse termo) foi amplo, geral e irrestrito para a maioria dos colaboradores do regime, entre eles homens com sobrenomes como Marinho e Frias – ou seja, os proprietários dos meios de comunicação que veiculavam (e vez por outra ainda veiculam) julgamentos sumários contra o bode preto, ex-pobre, depois ex-rico. E Simonal devia saber que alguns de seus algozes colaboraram com a ditadura com empenho bem maior – o livro de Beatriz Kushnir documenta, por exemplo, o uso de peruas do Grupo Folha no transporte de “subversivos” às dependências policiais onde seriam torturados e eventualmente mortos.

A história continua inconclusa, com muitas peças ainda a serem encaixadas. A mim, particularmente, alinhar aqui tantas informações intrincadas parece importante de algum modo estranho, e me ajuda a compreender por que até hoje, dez anos mais tarde, ainda me perturba e incomoda e machuca tanto a lembrança daqueles minutos desencontrados passados ao lado de Simonal no saguão de entrada da Folha. Eu nem sequer imaginava na ocasião, mas meu papel ali era de carrasco.

Kiko Dinucci + Mamelo = Pobre Star

Nosso artista Kiko Dinucci está produzindo mais um disco.  Uma das faixas é POBRE STAR, parceria de Mamelo Sound System e Kiko Dinucci!
Cuidado que o fracasso sobe pra cabeça!
Pra ouvir: http://www.myspace.com/mamelosoundsystem

POBRE STAR (Kiko Dinucci/Lurdez da Luz/Rodrigo Brandão)

Eu queria ter um milhão de amigo
Que chorasse, que comprasse, que morresse, que matasse por mim
Tiete, periguete, ballcat no camarim
Silicone, ciclone, botox, cóccix, pescoço
Puro osso e suicídio antes que o mal cresça
Sucesso ou fracasso a coisa sobe pra cabeça
Pobre Star
Cuidado que fracasso sobe pra cabeça

Vixxx! É cada um que me aparece… meu irmão, agora pense
Num cabra que se julga o gênio da dance
Rei do rap, do rock, Senhor do samba e do soul
Mas no dia D, na hora H, quando chega no show
Não se ouve aplauso algum, tampouco vaia
Pois ele é tão paia, que ninguém vai
Até lá, no lugar – nem mesmo pra xingar!
E tudo bem porque ele tá pra lá de Bagdá
Mal parou pra se tocar, seu estilo é non-sesnse
No sensimilla nem Sista Nancy
Esse artilheiro que nunca fez gol
Gosta é de cocaína, Coca-Cola e se acabou
Antes de começar, e é aí que cai a…
Casa (ao invés da ficha) em Guarulhos ou Gaya
Mas ele dá de ombros e diz: “Deixe estar,
No fundo sei que sou um superstar!”

Não tem cura doutor, não vou mentir sou bem aquela
Que topa qualquer foto sem nem precisar apelar
Entupindo meu nariz, machucando minha guela
Me acho mais gostosa quanto mais tô requenguela
Prefiro cantor de sucesso e galã de novela
Empresário, jogador, mas sempre poso de donzela
Mais evento, consumo, nada de som nem de tela
Filho passa longe, tenho horror à panela
Gente pobre, mal vestida só vejo pela janela
Mas ajudo orfanato e até uma favela
Sou da paz, sou cansei, vida rosa mas não bela
Num estalar de dedos me tornei uma cadela
Do sistema
Chego a sentir pena
Tenho secretária, celulares e nenhum telefonema
Sem convite camorote, ala vip é o fim
Até o mês passado a coisa não andava assim…

Ceumar + Di Freitas = ???

Eu sempre quis juntar meus artistas. Mas não é fácil. Poucas vezes tive essa oportunidade. Foi tudo meio de raspão: Ceumar gravou com a Cia Cabelo de Maria no Cd Cantos de Trabalho e a Juliana Amaral gravou participação especial no Cd O Alumioso do Di Freitas.

Nesse sábado será possível assistirmos ao encontro de Ceumar + Di Freitas + Lelena Anhaia + Sérgio Pererê na Festa Junina do Sesc Interlagos. Tenho cá pra mim que agora sim eu viverei um grande amor e não é mentira

Aproveito o ensejo tardio e coloco aqui o link da reportagem do Di Freitas no Metropolis

Lo Cor de La Rosa

vous

Clayton Melo, o Kid Muribeca

Sempre desconfiamos que ele era cineasta além de jornalista! Finalmente o Clayton saiu do armário e mostrou pra gente o lado cineasta. Gostaria de convidar esses três ou quatro para assistir na web a um curta-metragem que um dos mentores deste circo, Clayton Melo, fez com o documentarista chileno, Daniel Rubio. 

O filme se chama “Miró da Muribeca em São Paulo“. Ele mostra o poeta pernambucano Miró da Muribeca, um grande personagem que passou fome em São Paulo e que, pelo talento, aos poucos consegue um lugar ao sol na cena literária, especialmente no Recife, onde já tem o seu espaço.

No vídeo, Miró explica o Movimento Alegrista, do qual é fundador.

Declamar é a principal marca de Miró: é difícil quem não se entusiasme ao vê-lo recitar poemas que primam pela urgência e a fina observação da vida das cidades. Poesia forte, personagem carismático.

No blog dele, o Ponto de Fuga, há uma breve história sobre o poeta e o modo como o vídeo foi feito. E também o link para ver o curta, que não é muito longo. 
Aqui vai: http://www.pontodefuga.jor.br/ ( é o post “Ponto de Fuga produz vídeo sobre poeta Miró”)
E ainda mais. A ótima entrevista do Clayton com Kid Vinil, o Herói do Brasil. Destaque para o depoimento sobre a graça da internet e o lamento que o download pode acabar com o conceito de álbum.

Manda ver, Claytão!

Prêmio da Música Brasileira 2009

Depois de uma turnê com o grupo francês Lo Cor de La Plana - que grupo bom de trabalhar – a cantora Renata Rosa recebeu a indicação de MELHOR CANTORA, na categoria regional junto com · Lia de Itamaracá (‘Ciranda de ritmos’- Independente); · Lúcia Menezes (‘Pintando e bordando’ – Som Livre); · Renata Rosa (‘Manto dos sonhos’ – Independente).

E mais um artista que é representado por este circo também entrou no páreo de MELHOR GRUPO na Categoria MPB: Quinteto Violado (‘Quinto Elemento’ – Independente), concorrendo com · Bossacucanova (‘Ao vivo – uma celebração aos 50 anos da bossa nova’ – Batida Diferente) e  Pedro Luis e a Parede (‘Ponto Enredo – EMI).

A lista completa dos indicados do prêmio estão no link: http://www.premiodemusica.com.br/

Ai de quem

ai de quem puser a mão na minha filha mais velha. A Anninha me mandou um email contando o que os peemes fizeram e o que a mídia está contando. Mal sabe a Anninha que muitos dos contam as coisas pra gente se formaram lá, na escola dela.

Minha filha, o mundo é hostil e viver é muito perigoso. Força que teu pai segue orgulhoso de você

Email da Anninha:

É muito triste ver a mídia espalhar notícias falsas sobre os movimentos estudantil e trabalhista da USP. Os PMS ontem não foram encurralados pelos estudantes e trabalhadores que atiravam pedras e gritavam violentamente, como dizem todos os jornais de hoje (dia 10 de junho de 2009). Todos sabem que a polícia estava fortemente armada de cacetetes, pistolas com bala de borracha e bombas de gás lacrimogênio e pimenta. As ações ocorreram devido a uma falha de comunicação entre os policiais, que agiram de acordo com o seu sentimento de revolta contra os estudantes. Eu estive lá até as 16h30, e foi uma ação completamente legítima e pacífica.

Este e-mail expressa minha vontade de veicular as informações verdadeiras, contra as manipulações da imprensa oficial!
Envio também uma foto que bati do celular durante as ações pacíficas.

Veja o depoimento de um PROFESSOR que acompanhou o ato de ontem:

 

Relato do professor Pablo Ortellado:
Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professores haviam deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. A manifestação, que eu presenciei, foi completamente pacífica. Depois, as organizações de funcionários e estudantes saíram em passeata para o portão 1 para repudiar a presença da polícia do campus. Embora a Adusp não tivesse aderido a essa manifestação, eu, individualmente, a acompanhei para presenciar os fatos que, a essa altura, já se anunciavam. Os estudantes e funcionários chegaram ao portão 1 e ficaram cara a cara com os policiais militares, na altura da avenida Alvarenga. Houve as palavras de ordem usuais dos sindicatos contra a presença da polícia e xingamentos mais ou menos espontâneos por parte dos manifestantes. Estimo cerca de 1200 pessoas nesta manifestação.
Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciava assembléia dos docentes da USP que seria realizada no prédio da História/ Geografia. No decorrer da assembléia, chegaram relatos que a tropa de choque havia agredido os estudantes e funcionários e que se iniciava um tumulto de grandes proporções. A assembléia foi suspensa e saímos para o estacionamento e descemos as escadas que dão para a avenida Luciano Gualberto para ver o que estava acontecendo. Quando chegamos na altura do gramado, havia uma multidão de centenas de pessoas, a maioria estudantes correndo e a tropa de choque avançando e lançando bombas de concusão
(falsamente chamadas de “efeito moral” porque soltam estilhaços e machucam bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiu correndo até o prédio da História/ Geografia, onde a assembléia
havia sido interrompida e começou a chover bombas no estacionamento e entrada do prédio (mais ou menos em frente à lanchonete e entrada das rampas).
Sentimos um cheiro forte de gás lacrimogêneo e dezenas de nossos colegas começaram a passar mal devido aos efeitos do gás – lembro da professora Graziela, do professor Thomás, do professor
Alessandro Soares, do professor Cogiolla, do professor Jorge Machado e da professora Lizete todos com os olhos inchados e vermelhos e tontos pelo efeito do gás. A multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou acuada neste edifício cercada pela polícia e 4 helicópteros. O clima era de pânico. Durante cerca de uma hora, pelo menos, se ouviu a explosão de bombas e o cheiro de gás invadia o prédio. Depois de uma tensão que parecia infinita, recebemos notícia que um pequeno
grupo havia conseguido conversar com o chefe da tropa e persuadido de recuar. Neste momento, também, os estudantes no meio de um grande tumulto haviam conseguido fazer uma pequena assembléia de umas 200 pessoas (todas as outras dispersas e em pânico) e deliberado descer
até o gramado (para fazer uma assembléia mais organizada). Neste momento, recebi notícia que meu colega Thomás Haddad havia descido até a reitoria para pedir bom senso ao chefe da tropa e foi recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava na sede da Adusp se recuperando.
Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos de agressões se multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foi presa de maneira completamente arbitrária e vi vários estudantes
que haviam sido espancados ou se machucado com as bombas de concusão (inclusive meu colega, professor Jorge Machado). Escutei relato de pelo menos três professores que tentaram mediar o conflito e foram agredidos. Na sede da Adusp, soube, por meio do relato de uma
professora da TO que chegou cedo ao hospital que pelo menos dois estudantes e um funcionário haviam sido feridos. Dois colegas subiram lá agora há pouco (por volta das 7 e meia) e tiveram a
entrada barrada – os seguranças não deixavam ninguém entrar e nenhum funcionário podia dar qualquer informação.
Uma outra delegação de professores foi ao 93o DP para ver quantas pessoas haviam sido presas. A informação incompleta que recebo até agora é que dois funcionários do Sintusp foram presos – mas escutei relatos de primeira pessoa de que haveria mais presos. A situação, agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembléia de professores que se reuniu novamente na História e
estou indo para lá. A situação é gravíssima. Hoje me envergonho da nossa universidade ser dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos (eu mesmo a alertei em reunião na última sexta-feira) , autorizou que essa barbárie acontecesse num campus universitário.
Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão da reitora. Na minha opinião, se a comunidade acadêmica não se mobilizar diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o
diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação, não sei mais.
Por favor, se acharem necessário, reenviem esse relato a quem julgarem que é conveniente.
Cordialmente,
Prof. Dr. Pablo Ortellado
Algumas fotos:
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2009/06/448626.shtml
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2009/06/448641.shtml
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2009/06/448656.shtml
 
Alguns vídeos:
http://www.youtube.com/results?uploaded=d&search_query=usp&search_type=videos

cirque du lo cor de la rosa

O chauffeur deste cirque mandou avisar que em junho nos trouxemos um grupo pra la de arretado e engajado para cantar junto com a Renata Rosa. Serão várias apresentações no interior e capital de sp, finalizando com a apresentacão em Recife, no teatro de Santa Isabel.

É possível ver TV CULTURAPROGRAMA METRÓPOLIS 

Para ouvir mais, acesse www.locordelarosa.com.

Mais uma crítica do CD novo da Ceumar

Ziriguidum.com (Beto Feitosa)

Ceumar mostra composições em CD ao vivo
Quarto trabalho da carreira traz produção própria e inédita

Beto Feitosa

Em um mercado viciado em clonar produtos de sucesso Ceumar é uma bem vinda estranha no ninho. Sua voz especialíssima é digital própria, personalíssima, aliada uma escolha criteriosa especial; não tem igual. Agora, em seu quarto trabalho e nove anos depois de sua estréia fonográfica, Ceumar mostra que além de intérprete especial também é (ótima) compositora. A novidade está no CD Meu nome, título apropriado para seu primeiro registro ao vivo. O trabalho inaugura o selo Circus, parceria da cantora com o produtor Guto Ruocco.

Ceumar vem de Minas Gerais. E essa informação, mais do que localizar geograficamente, diz muito sobre sua música e seu jeito de criar/cantar. Em São Paulo encontrou afinidades artísticas com Zeca Baleiro (produtor de seu primeiro trabalho), Dante Ozzetti, Gero Camilo e Kléber Albuquerque entre outros. Por aí ficam as dicas das intenções artísticas da cantora. Mas para entender a mágica da música de Ceumar precisa (e deve, por deleite) conhecer, ouvir, mergulhar nesse universo só dela.

Em um disco totalmente autoral Ceumar traz 20 músicas: uma única alheia, oito só dela e as demais em que divide a assinatura com Dante Ozzetti, Estrela Ruiz Leminsky, Sérgio Pererê, Kléber Albuquerque, Mathilda Kovak entre outros. O mais curioso é que mostrando suas próprias criações Ceumar deixa ainda mais clara sua co-autoria de intérprete. Quem ouvir o disco sem referências ou sem as informações do encarte vai perceber a unidade entre os outros discos de sua carreira.

O CD foi gravado no Teatro Fecap (São Paulo) em apresentações de voz, violões, um pouco de percussão e convidados – não identificados no disco. Ceumar apresenta delicadezas inéditas como Meu mundo, o samba diferente Ciranda que fecha o disco, as lembranças do amor original em Mãe, a crônica divertida em Parque da paz que ilustra a sintonia especial da artista com a platéia cúmplice.

Ceumar volta a homenagear o filho, como fez em seu segundo disco, dessa vez em sua Planeta coração. O universo infantil inspira Ceumar em outros momentos como em Mochilinha de porquês, parceria com Gero Camilo, e Gira de meninos, composta com Sérgio Pererê. A música de Ceumar tem um lado lúdico, repleto de sutilezas próprias da grande artista; brincadeira de gente grande que sabe ser simples e sofisticada ao mesmo tempo.

Dividindo sua vida entre os palcos do Brasil e da Europa (especialmente na ponte São Paulo-Amsterdam), Ceumar é das artistas mais interessantes surgidas na última década. Sua música é sempre uma surpresa agradável cheia de um frescor moderno. Meu nome revela que Ceumar compositora, que já havia aparecido discretamente, traz a mesma delicada musicalidade da cantora especial. Um nome para ser grifado.

http://www2.uol.com.br/ziriguidum/base/indice.htm

 

Os Bastidores do “Meu Nome”

A Mariana Piza – Mari Pi – fez imagens e edição para o “nosso” show Meu Nome que é o show dela, Ceumar. Pronomes à parte, esse Picadeiro revela a patroa descontraída por meio deste simpático mini press release visual. Uau!

Imagens de Ceumar – Meu Nome

Vejam algumas fotos do último show da Ceumar na temporada da Fecap. As imagens são um presente do Paulo Fridman que foi lá para assistir ao “Meu Nome” mas não resisitiu e começo a clicar.

A ficha técnica desse tinha o Fernando NArcizo, o Rafel e o Jorge no Som e no palco. A luz e o cenário da Marisa Bentivegna. O figurino do Fábio Namatame. Os próximos shows em São Paulo serão no SESC Santana, dias 27 e 28 de junho. É claro que o Sérgio Pererê já faz parte do show e estará com a Ceumar onde quer que ela esteja. Onde qué/Cadê covolá

Crítica do Cd “Meu Nome”

A bela música da encantadora Ceumar

Entre o céu e o mar há Ceumar: bela música, deliciosamente afinada, e, agora, unicamente ela, seu violão e sua voz de afortunada beleza.

Ser céu é o jeitinho só dela de multiplicar cada estrelinha e decifrar suas entrelinhas que só ela a poeta vê, pois apenas a ela a lua empresta sua força prateada. Ser mar é o que ela é a cada acorde, a cada sílaba, saídos do ventre que já pariu Tiê, tornando-os mais brilhantes.

Entre o céu e o mar há Ceumar, a que, quando nasceu, o pai e cantor Clélio logo decifrou: “Ela chora no tom do amor.”

Ser mar é refletir as entranhas do desconhecido, onde a escuridão é mais profunda, onde habitam seres que só os especiais conseguem atinar o jeito de ser. Ser céu é ser mar, que é quando a memória da música guarda tesouros escondidos no fundo e no raso dos horizontes sem-fim.

E Ceumar nasceu em Itanhandu, na Serra da Mantiqueira, sul de Minas Gerais. Respirando música desde criança, estudou piano e aos dezesseis anos pegou o violão. Em 1995 veio para São Paulo e cuidou de assoalhar o caminho que a música lhe reservara.

Agora ela gravou ao vivo, no teatro Fecap-SP, Meu Nome, seu quarto CD. Dentre as 20 músicas selecionadas – diversificadas ritmicamente e com boas melodias e harmonias –, oito são só dela. As outras foram compostas com parceiros: Estrela Ruiz Leminski, Sérgio Pererê, Gero Camilo, Du Moreira, Ricardo Mosca, Kléber Albuquerque, Mathilda Kóvak, Etel Frota, Dante Ozzetti, Tatá Fernandes e Yaniel Matos.

Para ser tão afinada, Ceumar conta com uma respiração muito bem colocada. Seu diafragma responde com segurança a todas as inflexões que ela dá às interpretações. Ouvi-la é como um descanso em paz, como se tudo o mais ficasse sem importância; é deixar-se levar pela emoção cristalina de cada música.

Feito uma Joan Baez brasileira, Ceumar toca violão com a segurança que os faz como corda e caçamba, tamanha é a cumplicidade entre eles. E é justamente por isso que o que mais toca o coração são suas canções mais lentas, feito “Mãe”: “A voz primeira/ A voz mais bela/ A voz de mar/ Da minha mãe, Wilmar…”; ou “Planeta Coração”, homenagem ao filho Tiê: “(…) Tua presença é combustível/ Pro foguete coração/ Que me anima na hora certa/ Pra cantar feito criança esta canção”; ou ainda na bela e confessional “Feliz e Triste” (com Kleber Albuquerque): “Eu acho que estou feliz e triste/ Tudo o que eu tenho cabe/ Na minha mão.”

“Reinvento”, com Estrela Ruiz Leminski, abre o álbum e realça a voz de Ceumar; “Mochilinha de Porquês”, com Gero Camilo, é de uma doçura comovente; “Gira dos Meninos” tem ótimas participações da percussão e da voz do parceiro Sérgio Pererê; outra boa participação é a do pianista cubano Yaniel Matos em três das faixas, principalmente em “Dança” (dele e de Ceumar).

Assim é Meu Nome, reflexo da personalidade da música que se aconchegou entre o céu e o mar para dali emitir sons que a fazem única e sincera em seu ofício de ser Ceumar.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

Ceumar em fotos, vídeo e notícia

Allea jacta est! Ou melhor, o CD jacta est… Os shows do primeiro final de semana na Fecap estão registrados pela Alessandra Fratus. Clique aqui .
O Cunha Jr também fez uma reportagem legal sobre o disco e os shows no Metrópolis. Veja aqui. E por último, a matéria publicada no Caderno 2 , de 8 de maio, pelo Lauro Lisboa:

A essência das canções de Ceumar
Cantora lança CD autoral gravado no Teatro Fecap, onde volta a partir de hoje
Lauro Lisboa Garcia
Graça, leveza, ternura, inteligência e clareza são virtudes que se aplicam à arte de Ceumar. Dona de voz cristalina, envolvente e afinada como poucas hoje, ela já lapidou canções de Zeca Baleiro, Chico César, Itamar Assumpção, Josias Sobrinho, Dante e Ná Ozzetti, entre outros, em três belos álbuns – Dindinha, Sempre Viva e Achou (este com Dante Ozzetti)- desde 1999. Agora, a cantora ilumina suas qualidades de compositora em Meu Nome (Circus Produções Fonográficas), que lança em dois fins de semana de shows, a partir de hoje, no mesmo Teatro Fecap onde foi gravado há cerca de um ano.

Alguns parceiros das canções, como Dante, Tata Fernandes, Yaniel Matos e o percussionista Sérgio Pererê, fazem participações ao longo da temporada. Outros convidados são Fabiana Cozza, Lelena Anhaia, Rubi e o holandês Ben Mendes, marido, músico e produtor da cantora. Com suas composições, ela mantém a coerência com o que já vinha cantando de outros autores. “Acho que o que consigo melhor com minha música é desenvolver mais a musicalidade, mais até do que o aspecto da composição. Não sou uma estudante, como Dante Ozzetti, que é um mestre da canção”, diz. “O que faço é pegar meu violão, que me acompanha desde os 16 anos, e abraçá-lo. Ele me ajuda a descobrir melodias.”

Ceumar se acompanha sozinha ao violão na maioria das canções, em ritmo de samba, frevo, ciranda, bossa, balada, bolero, toada, reggae. O pianista cubano Yaniel Matos toca lindamente nas suas parcerias com ela (Um Dia de Chuva e Dança), além de Ciranda (dela e Dante). Pererê marca presença em Gira de Meninos (dos dois) e na vinheta Oiá, só dele. Gira e Oração do Anjo (parceria de Ceumar com Mathilda Kóvak), já tinham sido gravadas por Rubi.

Como o show que gerou o disco, este é composto só de novas canções, mas isso não é empecilho para prender a atenção da plateia. São canções que fisgam o ouvinte à primeira audição, como o divertido frevo Maracatubarão, música e letra dela. Meu Mundo (parceria com Tata Fernandes) é uma daquelas baladas radiofônicas que se os programadores das emissoras brasileiras se dignassem a tocar viraria hit. “Acho que a maioria do público que me acompanha é ávido por novidades”, diz a cantora. Mas se alguém pedir Dindinha (Zeca Baleiro), que é a “música da vida” dela, no bis, Ceumar não vai se negar a cantá-la.

Ademais, as 20 faixas do CD são canções de fácil assimilação, com poucos acordes e arranjos despojados, mais próximos “do real”, do essencial. “Minhas músicas são simples, gosto dessa coisa de cantar fácil, que aprendi ouvindo rádio com meus pais.” O disco foi mixado em Amsterdã. O subtítulo Live in São Paulo e os textos em inglês indicam a intenção de Ceumar internacionalizar melhor sua música. Mineira radicada em São Paulo, ela tem ido bastante à Holanda, onde o marido ficou morando. Lá ela gravou outro álbum com ele, ainda sem previsão de lançamento.

Para a Mãe

DE BERÇO: Filha de cantores, Ceumar traz de casa o primor com a melodia e a afinação. Uma das canções mais bonitas de Meu Nome é Mãe, composta para Wilmar, a mulher que foi uma referência musical para ela. Por isso considera a faixa mais importante do disco. No dia 4 de março de 2008, de volta de uma visita à mãe em Minas, Ceumar compôs a canção em homenagem a ela. Uma dia depois Wilmar morreu. Foi com ela que Ceumar aprendeu a ouvir música e também a cantar. “Sempre foi uma inspiração de voz e de música para mim. Minha mãe e meu pai, também cantor, não me deixavam desafinar”, conta Ceumar. Com melodia e letra de sua autoria, a canção diz:
“Ela foi a primeira voz
Desde a primeira vez
Que o som se fez
Nunca desafinou
Nunca perdeu o tom
Cantarolava feliz
Cada verso diz mais
Quando vem emoldurado
Por sua voz
E eu aprendi muito bem
Sempre tento ecoar
A voz primeira
A voz mais bela
A voz de mar
Da minha mãe, Wilmar…”

Serviço: Ceumar. Teatro Fecap (400 lug.). Avenida Liberdade, 532, 2198-7719. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 20. Até 17/5

Sertão no Meio do Redemoinho

Minha querida amiga e super produtora Andréa Caruso, diretamente de Cordisburgo, terra do Dito-Cujo, está produzindo e dirigindo “bem pra caralho como sempre” o espetáculo “Sertão no Meio do Redemoinho” sobre o Grande Sertão: Veredas, em praças de São Paulo. Aliás, a direção é dela e de Ricardo Muniz Fernandes.

Se liga que é uma maratona. No elenco tem a mais que fodona Joana Levi, Assistente de direção e atriz do espetáculo “O Homem Provisório” da Casa Laboratório. Deve ser “bãozão”, heim bicho?

sertai_no_meio_do_redemoinho

Dica de Mãe

PARATODOS os gostos. Simplesmente imperdível para quem realmente se emociona com a música que vem da alma! Dia 8 de maio a Ceumar estréia a temporada do show de lançamento do novo dico na Fecap. Tem participação da Tata Fernandes, do Rubi, do produtor do disco Ben Mendes e do Gero Camilo! Esse show permanece nos dois finais de semana no Teatro Fecap. Até dia 17


Foto: Paulo Fridman

E também nos dias 8 e 9 de maio, no Sesc Vila Mariana, tem uma orquestra porreta! Exploding Star Orchestra: Uma banda de jazz experimental liderada pelo trompetista Rob Mazurek faz show com participação de Roscoe Mitchell, saxofonista e líder do Art Ensemble of Chicago, expoente do free jazz

O Alma de Egberto por Déa Trancoso

Nossa Déa Trancoso mandou pra gente suas impressões sensíveis de artista mineira-maneira sobre o show “Alma”, do padrinho dela, Egberto Gismonti, que aconteceu no Teatro Muninicipal de Sampa, na Virada Cultural Paulista. Segundo a Déa, ”Um sopro de vida! Um luxo!!!”

Tá na blogue dela. Aliás, o blogue dela tá ali para sempre conosco.

Fomos, uma turma da pesada {eu, geovana jardim, kristoff silva, felipe josé (do grupo ramo, que tá masterizando o primeiro discão!!!), lauro (anfitrião na velha, linda e boa Sampa!)} ver o show “Alma” (disco de 1986), de Egberto Gismonti, na Virada Cultural Paulista 2009!

Minha gente, é necessário partilhar com vocês o tal feito. Já saímos daqui certos de que veríamos o show, pois o próprio Gismonti havia, num ato de extrema delicadeza, amor e respeito à música, garantido os nossos ingressos. Sim, as filas são quilométricas!!! Quem não chega cedo, não vê os espetáculos que acontecem no Teatro Municipal de São Paulo (que, diga-se de passagem, é uma construção impressionante!). Ou melhor, vê, mas pelo telão colocado do lado de fora.

Pois bem, com a “garantia” dada pela alma do dono, ficamos bem serenos. Íamos ver um piano e um homem, como disse ele ao telefone, quando liguei para, na maior cara de pau, que só os amigos unidos pelos laços coloridos e inquebrantáveis de Dona Música têm, pedir não apenas um, mas seis ingressos. Vimos o tal piano e o tal homem de um lugar especial, capaz de nos mostrar a beleza dos movimentos do corpo e das mãos daquele Sacerdote da Música.

Eu me senti como numa cerimônia sagrada na qual o “sacerdote” vai guiando todos para que ao final possam comungar do “corpo de Deus”. Ali, estava aquele sacerdote a nos guiar para que ao final comungássemos a hóstia divina chamada Música.

Ele ia falando da Vida e tocando a Música… Uma por uma, teve história, risos, respirações contidas e explosões de sentimentos guardados que só deixamos sair para fora quando o Maravilhoso nos toma…

Eita! Foi a primeira vez que vi Egberto Gismonti ao vivo! Que Beleza! Meus sinos tocaram e depois de algum tempo de “missa”, já não via mais Egberto Gismonti ao piano. Via, sim, as igrejas de Minas, os sotaques do nordeste, as gentes, os índios, os músicos, as músicas, minha mãe, meu pai, Egberto novinho, começando a ser embalado pela Música, sua mãe, que nunca conheci, seu avô Antônio, seu tio Edgar, seus filhos, Bianca e Alexandre, as heranças. Enfim, eu vi o Brasil passando… Vi Villa Lobos. Vi Mário de Andrade. Vi o Brasil passando… Ferozmente brasileiro. Dentro e fora de mim, na missa daquele sacerdote da Música!

Suspirei o meu Brasil de dentro e chorei de alegria por ser BRASILEIRA!!!
VIVA ESSE LUGAR CHAMADO BRASIL, QUE DÁ O PAJÉ, O CABOCLO, A MESTRANÇA, A SABEDORIA DOS ANÔNIMOS QUE AJUDAM A ESCREVER A HISTÓRIA DE VILLA, DE MÁRIO E DE EGBERTO GISMONTI…

QUE PAÍS É ESSE, DE RIQUEZAS SEM FIM, MEU DEUS?!

A Hora da Estrela

Minha filha, Clarice, nasceu dia 30 de abril. Como diz o meu irmão, “nunca vi um exercício tão narcísico do que você querer ter um blogue”. Nem eu, nia. Nunca vi. Mas é aquilo mesmo. Pai é pai. babão, bobão!

Tentei me conter nesse blogue. Espalhei um email contando o fato e mostrando fotinhas de Clarice. E nesse email eu coloquei a letra de uma música para falar que as minhas meninas, letícia e clarice são as minhas meninas. Mas esqueci de dizer que a poesia e as notas da canção são todas do Chico Buarque. O leite tá deramado e o babão, aqui, só tem olhos para os espelhinhos letícia e clarice

As minhas meninas
Chico Buarque/1986
Para a peça As quatro meninas – Disco Francisco de 1987
Olha as minhas meninas
As minhas meninas
Pra onde é que elas vão
Se já saem sozinhas
As notas da minha canção
Vão as minhas meninas
Levando destinos
Tão iluminados de sim
Passam por mim
E embaraçam as linhas
Da minha mãoAs meninas são minhas
Só minhas na minha ilusão
Na canção cristalina
Da mina da imaginação
Pode o tempo
Marcar seus caminhos
Nas faces
Com as linhas
Das noites de não
E a solidão
Maltratar as meninas
As minhas não

As meninas são minhas
Só minhas
As minhas meninas
Do meu coração

www.chicobuarque.com.br

Yes, Nós temos Virada

Tá ligado que de sábado para domingo tem Virada Cultural, né? Tem bastante coisas legais rolando pelos palcos afora. O melhor é tomar uns “goró” e passar a noite perambulando por aí. Até o final de domingo.

E a gente também tem dois eventos que eu quero te indicar.

Tem Viagem de Verão com o Arthur Nestrovski, Jussara Silveira e André Mehmari para ouvir bem agarradinho na cadeira do Centro Cultural S. Paulo e depois tem show do Otto com uma puta banda. Este é pra dançar bastante!

flyer_otto_2009

Juliana Amaral canta Rubens Nogueira

nesse sábado, dia 25, a Juliana Amaral canta as canções de Rubens Nogueira, compositor de mão cheia que lançou um disco de sambas em parceria com Paulo César Pinheiro. Estarão conosco Alexandre Ribeiro (clarinete), Sérgio Reze (bateria) e Marcelo Cabral (contrabaixo).O show acontece no SESC Ipiranga, às 20h. visite!

www.julianamaral.com.br
www.myspace.com/julianamaral

flyer_rubens

Dia de São Jorge

Hoje é dia de são jorge. guerreiro. a lua é de são jorge, né? falando em lua de são jorge, como é guerreiro esse caetano veloso. ele deixou de ser o chaetano e voltou a ser caetano. quanto mais tiozinho ele fica os discos dele estão mais novos e melhores.
é a sina dos nove. em 1969 ele lançou o “branco”. Em 1979, foi o melhor de todos: “Cinema Transcendental”. Em 1989 foi um dos primeiros cds que eu tive na vida: o “Estrangeiro”. Em 1999 foi o emocionante “Omaggio a Federico e Giulietta – Ao Vivo”.
E vão passando os anos e ele não se perde de nós. o caetano veloso acabou de lançar mais um disco, “Zii e Zie”. e não é que é bom de novo!
Só quem já foi tropicália podia vir com um disco tão roqueiro como o Zii e Zie. Ele dispista que é samba mas é rock. Quero ver o show porque acho que as canções do disco terão ainda uma cara muito mais roqueira. com as guitarras e os arranjos dos meninos com quem o “tio” caetano se renova:Pedro Sá, Moreno Veloso, Ricardo Dias Gomes, Marcelo Callado. Eu achei o “Cê” uma das melhores coisas depois de muito tempo. Tá certo que eu não aguento mais o caetano com cara de fernando gabeira (eles estão com a mesma cara, cabelo, discurso…). Mas acho que “Alguém levou as cueca dele prum bruxo rezar” e o tio fez o disco com muito tesão. “Tarado Ni Você”. O Lobão disse pro Caetano: “Chega de Verdade”. E o Caetano aprendeu: “Lobão tem Razão”. A lua de são jorge vai continuar brilhando nos altares e nos lugares onde nosso “tiozinho” for. Ele tem vindo com coisa muito boa pra quem tá com cara de tio mas é mais jovem que todos nós.

O Rei do Maranhão

Não é o José Sarney nem a filha dele. O Maranhão tem Bala na agulha para além do coronelismo. Tem Zeca Baleiro, que eu tô, faz tempo, para falar aqui nesse blogue. Como é bom “O Coração do Homem-Bomba”!
Talvez porque eu tenha ouvido muito o Volume 1 e não tivesse tido tempo para ouvir o Volume 2. Mas os dois volumes são ótimos e mostram que o Baleiro continua inspirado como aquele de “Por Onde Andará Stephen Fry?” de 1997.
ZB traz um montão de novas composições com a ironia no limite da poesia e tem sempre seus grandes parceiros compositores que contribuem para o disco se fazer grande: tem o clássico maldito Zé Geraldo, tem o paraense Joãozinho Gomes e vai passando pelo alagoano/catarinense Wado, além dos grandes contemporâneos Chico César, Kleber Albuquerque, Totonho, André Bedurê.
Não por acaso, Baleiro regravou “Alma Não Tem Cor” do André Abujamra do Karnak. O “Coração do Homem Bomba – Volume 1″ é puro Karnak. Nas letras, na maneira de abordar os problemas mundanos e principlamente na musicalidade. Notam-se nomes em comum naquele Karnak com esse Zeca Baleiro: Evaldo Luna na gravação e produção musical, Kuki Stolarski (bateria e percussão), Guilherme Kastrup (percussão), Hugo Hori (sax).
E o “Volume 2″ não perde a força não. Se no primeiro tinha a regravação de “Bola Dividida” do portelense Luiz Ayrão, no segundo, Zeca Baleiro prova deifinitvamente que sabe bem fazer “pastiches” – precisa ter talento também para fazê-lo – e por isso, já se tornou o “Datena da Raça”, o poeta da dor, o cantor da desgraça do mundo.. Saravá, Zeca Baleiro!

Estevinho

Estevam da Costa Barros era o Estevinho de quem eu já falei aqui nesse blogue. Ele tinha 82 anos e morreu ontem em Mococa. O Estevinho era pintor, era um amante de música e principalmente do carnaval mocoquense. Foi o Estevinho um dos maiores responsáveis pelos grandes carnavais que a minha Mococa já teve.
Se ele vivesse hoje nesses tempos “mudernos” ele seria chamado de gestor. Mas ele foi das antigas e a gente acaba caricaturando e ignorando o cidadão. Ele foi responsável por grandes desfiles de rua e também pelos maiores carnavais de salão.
Eu já disse aqui sobre ele. E era meu pai quem me dizia que as maiores bandas e “big bands” eram cativas do Clube do Círculo Operário Mocoquense, que o Estevinho presidiu.
Acho que a última comissão de carnaval que o Estevinho chefiou foi no carnaval de 1993. Naquele ano teve desfile de rua, concurso de marchinhas no coreto e show do Jair Rodrigues finalizando aquele festival. Tudo de graça. Ele adorava o Padre Demósthenes. Ele era conhecido na cidade porque no final de cada carnaval, ele devolvia dinheiro em nome da comissão que ele presidia.
Coisa de gente que não pode viver mais nesse mundo de Daniel Dantas.
Estevinho deixou três filhos, uma penca de netos (a Carla, o Lucas, inclusive) bisnetos e a Dona Maria que viveu ao lado dele 60 anos de casamento.
Se o céu é bom mesmo como dizem por aí, essa hora a “veiarada” curtindo um foquestrote arretado com os anjinhos!

Ceumar navega em águas limpas

tudo aí, já. A capa do Jaime Prades com foto do Paulo Fridman. O disco com trechos de todas as canções com a marca Ceumar. E como disse o Luís Fernando Veríssimo, “a voz mais límpida a aparecer por aqui desde Zizi Possi”. As letras,  fotos novas, tudo novo! Ceumar que tem uma carreira de quatro discos — um lançamento a cada três anos — agora se mostra numa nova fase: compositora.

Todas as canções tem Ceumar sozinha ou acompanhada de seus parceiros. A que eu mais gosto na capa da Circus. Uma parceria chamada “meu mundo” com Tata Fernandes: “Onde é o fim do mundo/ Meu mundo só tem começo/ Meus desejos não tem fim”.

E os desejos dessa moça que tem céu e mar no nome não se desvendam. Pra mim, o segredo dessa voz vem da água do Rio Verde ou do Rio Itanhandu. A brincadeira com o nome passa por algumas canções mas a maior revelação do canto de Ceumar ela deixa transparecer na letra de “Ciranda” (música de Dante Ozzetti e letra dela): Eu gosto de cantar/ Seja lá onde for/ Livre na melodia/ Na alegria, no amor

Se ela não revela os segredos desse disco é porque o disco não tem segredo: Pra cantar basta ter ar, ela dá a pista. Mas o canto é mais bonito porque ela está ali, crua. Só ela. Seu violão e dois convidados parceiros: Sérgio Pererê e Yaniel Matos. Na voz dela tudo é simples, limpinho, direto. Como tem que ser.

A mineirinha de Itanhandu já ganhou o mundo e logo se muda para Amsterdã. Para quem ganhou a Sampa de Itamar, Amsterdã não assusta ninguém, né? E além do mais, a gente sabe que lá tem até uns “corgos” o que vai fazer a Dona Ceuzinha se sentir em casa. Ela vai, nóis não fumo. Mas vortemos a ter a Ceumar cantando música de voz de vó no nosso pé do ouvido. Bão demais!

SERVIÇO
Artista: Ceumar
Nome do disco: Meu Nome
Gravado ao vivo no teatro fecap
Distribuidora: CPF – Circus Produções Fonográficas
Avaliação: lindo de morrer!

Observação: Esse blogue fez essa crítica e ganhou um jabá do produtor da artista, além de ser fã dela.

Ah, e não se esqueçam que dias 8,9,10 e 15,16 e 17 de maio tem lançamento do disco na Fecap

ping pong, babaloo e ploc

chega de política. se o bandido é quem prende e o mocinho é quem financia os jatinhos e outros conchavos, chega de política. o brasil vai discutir até as próximas eleições quem será o melhor candidato para o Daniel Dantas. Acho até que se dispensará a eleição. Deixa que ele escolhe. Esqueça a política. vamos fingir que não é com a gente. façamos como um adolescente entediado,  mascar um chiclete e visitar os blogues de música e cultura. escape. não é melhor? Haja ping pong, babaloo e ploc

O Ciúmes, a Páscoa e o Futebol

Me lembro de ter assistido ao lançamento do livro A Nervura do Real, da professora Marilena Chauí. Talvez tenha sido em 1998 ou 1999. Já são mais de dez anos que tô aqui em Sampa…
Claro que eu fui lá sem ligar a mínima para o Espinosa. Mas aquela mulher tinha sido a secretária de cultura da Erundina, petista querida. Oh , Meu Deus, esse implacável senhor chamado Tempo que destrói nossos amores!

Mas voltando do delírio, segundo a professora, enquanto na tradição judaico-cristã a liberdade é a fonte de nosso mal e de nossa culpa, Espinosa diz que ela não nos tira a necessidade de agir. “Assim como Deus é imanente ao mundo, a nossa mente é imanente ao corpo. Corpo e alma se equivalem, não há hierarquia de um sobre o outro”.
Uma diferença entre a filosofia do pensador holandês e aquela ditada por judeus e cristãos está no conceito de virtude. Marilena Chaui explica que as virtudes, na concepção dessas duas religiões, vêm da tristeza e do sofrimento. “Para Espinosa, a tristeza diminui a capacidade de existir”.
O amor e o ciúme serviram de exemplo para a professora, que afirma que, segundo Espinosa, as paixões são sentimentos naturais e não vícios perversos. Chaui classificou o ciúme como a flutuação da alma: “Nós amamos uma pessoa e tudo o que a faz feliz. E odiamos o que a aborrece. Mas se esse ser amado ama outra pessoa, esse terceiro é amado e odiado por nós ao mesmo tempo, porque se torna um rival, faz meu amado feliz e me deixa triste. O ciúme é isso _ já não sabemos o que sentimos_ amor e ódio são simultâneos.”
Eu que sou um ciumento inverterado, quanto ciúmes eu sinto hoje do maior rival, Palmeiras, que tem um presidente como o Sr Belluzzo, capaz de subverter a lógica arrogante e autoritária dos cartolas dos clubes de futebol. Quanto ciúmes eu tenho do jogador Adriano que “deu um tempo” com a Inter de Milão, com a Seleção Brasileira para reencontrar a alegria na Vila Cruzeiro.

De novo os mineiros tem razão: “O Medo de Amar É O Medo de Ser Livre”.

Afora a caretice das religiões judaica e católica – que coincidem esse ano o período da Páscoa ou do Pessach – quero crer que alguma coisa volte a aflorar na gente depois desse período.

Fontes de pesquisa: Folha On Line; Bloganvile

A Costureira Juliana Amaral é flor de algodão em Casa de Francisca, no Buttina e quando a lua gira

Tenho um bocado de boas novas pra te contar sobre os próximos dias da Juliana Amaral . Juliana é como aquelas costureiras avós que vai pedalando sua singer de ferro a cerzir uma agenda de renda ou pano nobre:

Dia 16 de abril ela costura minimamente na Casa de Francisca.

Dia 25 de abril, sábado, ela faz uma participação no bordado do Rubens Nogueira – quem não conhece o disco do Rubens Nogueira vai endoidecer. Será no SESC Ipiranga, às 20h.

Dia 5 de maio, terça, ela grava o nome no pano-DVD do grupo
Batucajé (Robertinho Silva, Simone Soul, Alfredo Bello e Jad), em show ao vivo no auditório do Centro Cultural Banco do Brasil aqui de São Paulo. No myspace dela tem a faixa do disco deles que ela gravou maravilhosamente A lua girou (adapt. Milton Nascimento)

Dia 6 de maio ela inicia uma temporada de três quartas-feiras no Restaurante Buttina. E lá se apresenta com seu Samba Mínimo dias 13 e 20 de maio.

A lua girou traçou no céu um compasso
Eu também quero fazer
Um travesseiro nos teus braços

Travesseiro dos meus braços
Só não faz quem não quiser
Um travesseiro dos meus braços

 

Dia 7 de maio ela faz novamente Casa de Francisca.

E dias 29 e 30 de maio (sexta e sábado) faz backing vocal no concerto do pianista africano Ray Lema com a Orquestra Jazz Sinfônica. Será no Auditório do Ibirapuera, às 21h.

Tá costurado? Junte os poucos panos que ela nos destes a esses outros nobres que ela está a fiar que no final dos bordados ela te ensina a fazer renda e te ensina a nomorar.

Circus de lona nova

Já disse aqui que por causa da patroa Ceumar, este circo tem uma nova função. Distribuir o novo CD Meu Nome pra rede, pras lojas, pros fãs e pra quem mais chegar. E o que era produtora circus vem a ser circus produções culturais & fonográficas.

A histórinha do palhacinho dentro da bolinha laranja foi uma idéia da Flávia Ferros, que a Alessandra trouxe pra cá em 2006/2007. Depois, com a contratação do Estúdio Risco para a confecção dos nossos flyers, o palhacinho se libertou da bolinha.

Agora a circus repatriou um palhaço da família para reformular a logo e em breve, colocar no ar um novo site www.circusproducoes.com . Sem o “br” pros gringos especialmente dasolanda não estranharem o cantinho internético da Ceumar . O “br” continua também. Aí vem o Joel Ruocco. O Joel, como vocês podem perceber é meu primo, diretor de cultura da Semana Universitária Mocoquense que eu presidi em 1995; é arquiteto mas resolveu ir para Itália e Espanha se especializar em História da Arte e trabalhar. Voltou há pouquinho tempo e se instalou em Floripa, donde trabalha atualmente como designer gráfico e designer de apresentações (slides em PowerPoint) através de sua própria agência, a CRIAOM Design (www.criaom.com). Tudo aqui na circus sempre passou e continuará passando pela administração infalível do João Paulo Freitas. Vejam só se vocês gostam, “dois ou três”.

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