Marcelo Jeneci convida Tulipa Ruiz amanhã e sábado


3 e 4 de fevereiro de 2012, sexta e sábado, 20h

MARCELO JENECI E BANDA CONVIDAM TULIPA RUIZ

Duas grandes revelações da música popular brasileira se encontram no palco do Sesc Santo Amaro. Jeneci canta suas principais composições convidando Tulipa para acompanhá-lo em parte do show. A canção “Dia a Dia, Lado a Lado”, autoria da dupla e que é tocada somente em show está no repertório.

Marcelo Jeneci, multinstrumentista lançou seu primeiro CD, “Feito para Acabar”, no final de 2010. Antes disso, fez parcerias com Chico César, Vanessa da Mata, Zé Miguel Wisnik, Paulo Neves e Arnaldo Antunes.

Tulipa Ruiz, cantora, também em 2010, lançou seu primeiro álbum, “Efêmera”, em que brinca com a variedade de estilos sem descuidar do apuro na composição das letras.

Ficha técnica
Marcelo Jeneci – wurlitzer e teclado juno, sanfona, guitarra e voz
Laura Lavieri – voz
Regis Damasceno – violao e baixo
Estevan Sinkovitz – bandolin , violao e guitarra e vocal
Richard Ribeiro – bateria e vocal
Joao Erbetta – violao, guitarra e vocal

convidada especial – Tulipa Ruiz

Alessandra Domingues – luz
Vitor Paranhos – tecnico de PA

SESC Santo Amaro
Rua Amador Bueno 505, Santo Amaro, São Paulo | telefone: 5541 4000
Ingressos à venda pelo sistema INGRESSOSESC: R$20,00 [inteira] R$10,00 [usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante] R$5,00 [trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes]
Classificação etária 16 anos

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Grandes atrações no Nublu Jazz 2012

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O samba mínimo de Juliana Amaral

por Marcio Yonamine

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Elis Regina, por Pedro Alexandre Sanches

Elis Regina: 30 anos blue

Pedro Alexandre Sanches

Já se vão 30 anos sem Elis Regina, e ela permanece sendo um assunto apaixonante, delicado, perturbador para o Brasil. Sua morte precoce, em janeiro de 1982, foi um divisor de águas que traumatizou todo um país, de impacto até hoje apenas parcialmente avaliado.

Em termos mais amplos, o trauma antecipou em alguns anos a derrocada oficial da ditadura militar, num arco esquisito que se fecharia em 1989, com as primeiras eleições presidenciais diretas desde 1960 e a morte de Nara Leão, outra cantora-símbolo do Brasil que deixava vagarosamente de existir. Para a chamada música popular brasileira, a morte de Elis significaria a extinção de um paradigma heroico que não se renovaria mais, mas de que muitos sentem até hoje saudades algo mórbidas.

Não é que de lá para cá não tenham despontado cantoras brilhantes, dentro do paradigma triplo Elis Regina/ Gal Costa/ Maria Bethânia – é possível citar Marisa Monte, Cássia Eller, Maria Rita, Ana Carolina ou Vanessa da Mata, apenas para ficar em algumas das mais evidentes. O que não se renovou após Elis foi a disposição de artistas (de quaisquer sexos) para ocupar o papel épico e um tanto masoquista que a intérprete gaúcha, voluntária e involuntariamente, desempenhou nos poucos e intensos anos em que esteve na boca da cena musical local.

Frequentemente tomamos essa ausência como saudade, nostalgia e vazio, mas não deixa de ser positivo que esteja vago há tanto tempo o trono de Elis ou, antes dela, Carmen Miranda – aquele lugar do palco no qual alguém sofre, se dilacera e sangra diante de nós para purgar nossas próprias e ocultas dores.

Carne dilacerada em forma de música é o legado maior de Elis, como comprovam gravações atemporais fulminantes como “20 Anos Blue” (1972), “Na Batucada da Vida” (1974), “Como Nossos Pais” (1976), “Romaria” (1977), “O Bêbado e a Equilibrista” (1979). O vazio deixado por ela dá conta do talento da artista, mas também do fato de que não devia ser fácil carregar tanta dor na voz.

A nostalgia dita de esquerda provocada pelo fantasma de Elis engloba o mito da artista participante, politizada, que sangrava por si e por “tanta gente que partiu num rabo de foguete”. Foi outro dos caminhos doloridos para ela, que veio de origem despolitizada, cantou para o Exército, foi cobrada por isso e penou para conquistar prestígio junto a patrulhas MPB que não admitiam nada além do pensamento único (ainda que pretensamente progressista).

Entre a Elis de “Viva a Brotolândia” (1961) e a reinvenção como porta-voz da anistia, financiadora da aurora do PT (como conta André Midani, seu diretor nas gravadoras Philips e Warner), se encontrava a morte.

Saudades à direita também emanam, talvez daqueles mesmos que há décadas celebram o fato de os artistas contemporâneos não serem “panfletários”, não misturarem música e política – mais patrulhas, embora no vetor oposto. Sentem saudade de Elis à mesma medida que deploram, nos artistas de hoje, atributos que Elis suou frio para possuir. Paradoxalmente, não é difícil imaginar saudades mortais à direita e à esquerda brotando dos mesmos peitos, digam-se eles “progressistas” ou “conservadores”.

A trajetória ideológica de Elis, de “apolítica” a “direitista” a “esquerdista”, diz muito sobre o país que ela embandeirava. Aconteceu conforme a menina pobre, filha de lavadeira, saltava, progressivamente, de sub-cidadã marginalizada a cantora infanto-juvenil sem personalidade, intérprete jovem abrutalhada, ícone pré-moderno, estrela aculturada, intérprete sofisticada e sutil, tradutora sensível dos sentimentos bossa-nova de Tom Jobim, musa de alguns amores e de todas as dores.

Paradoxalmente, quem mais lamenta a ausência de Elis 30 anos depois se confunde, não raro, com quem mais rejeita artistas de origens parecidas às dela no presente. Lamenta-se o fato de não termos “uma nova Elis” como se combate o advento de um Michel Teló ou como se lastima a existência de uma Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, Tati Quebra-Barraco, Gaby Amarantos, Sthefany ou Joelma da Banda Calypso.

Ontem ou hoje, para os cultuadores da MPB de extração universitária à qual Elis teve de se adaptar sem pertencer ao grupo, apenas a MPB de extração universitária tem direito de existir – e deem-lhe imitadoras “sofisticadas” exalando semelhança, morbidez, desânimo e falta de identidade própria.

A vingança póstuma de Elis é que, tanto quanto teve de se “educar” para pertencer aos clubes que não a queriam como sócia, ela é cofundadora (morta, infelizmente) de um Brasil no qual meninas parecidas com ela brilhariam sem depender dos “intelectuais” legitimadores de que ela foi refém.

Se, noves fora, algum nostálgico ainda reclamar que “há 30 anos não nasce uma nova Elis Regina”, aconselhe-o a procurar nas periferias como aquela em que ela nasceu, em Porto Alegre (RS) ou em qualquer canto do Brasil. Encontrará filhas de Elis às dúzias. Talvez elas não soem tão tristes e melancólicas como a mãe soava 30 e 40 e 50 anos atrás, mas este é o começo de uma outra conversa.

Texto publicado originalmente no Último Segundo/ iG, em 18 de janeiro de 2012.

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O Nublu Jazz Festival no ótimo Blogue “Música de Alma Negra”, de Carlos Calado

Nublu Jazz Festival: evento traz Dom Salvador e Sun Ra Arkestra outra vez a São Paulo 

 Carlos Calado

 

Duas cultuadas atrações da cena do jazz e da música negra contemporânea voltam a se apresentar em São Paulo. Com shows de 9 a 11 de fevereiro, na Choperia do Sesc Pompéia, a segunda edição do Nublu Jazz Festival destaca o lendário pianista e compositor paulista Dom Salvador (foto ao lado), que vive nos EUA desde a década de 70, e a vanguardista big band norte-americana Sun Ra Arkestra (foto abaixo).

Criado pelo clube nova-iorquino Nublu, esse festival reúne um elenco diversificado, que também inclui artistas brasileiros. Na noite de abertura (9/2) apresentam-se a banda nova-iorquina de trip-hop Wax Poetic e o trio paulistano Marginals, além do MC Rodrigo Brandão e da cantora Tulipa Ruiz.

A segunda noite (10/2) tem como atração principal Dom Salvador, que promete reeditar o grupo carioca Abolição, pioneiro na história da black music brasileira. Quem abre o programa é a norte-americana N’Dea Davenport, que ficou conhecida na década de 1990 como vocalista da banda inglesa de acid jazz Brand New Heavies.

A última noite (11/2) é dedicada aos improvisos e ao free jazz futurista da Sun Ra Arkestra, que após a morte de seu criador, o tecladista e compositor Sun Ra (1914-1993), tem sido dirigida pelo saxofonista Marshall Allen.

Os preços dos ingressos vão de R$ 32 (inteira) a R$ 8 (matriculados no SESC e dependentes). Vale lembrar que, para eventos como esse, os ingressos costumam se esgotar rapidamente. Outras informações no portal do SESC SP.
Veja a matéria completa do blog “Musica de alma Negra”, de Carlos Calado aqui

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Tom Zé Santana no Santana

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Calunga, com Jussara Silveira, do CD Flor Bailarina

Jussara Silveira, Calunga

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OVA – Orquestra em turnê pelo SESC SP

Orquestra de Violoncelistas da Amazônia – OVA

Em turnê pelo estado de SP, a OVA se apresenta em Santos, Santo Amaro, São José dos Campos, Itaquera e Santo André dentro das unidades do SESC SP

A Orquestra de Violoncelistas da Amazônia da Escola de Música da UFPA foi criada em 1998 pelo Prof. Dr. Áureo DeFreitas. Sendo a única orquestra profissional Juvenil de Violoncelistas em todo o Brasil, vêm fazendo parte da agenda cultural e causando um impacto no cenário educacional. Ao longo desses treze anos de atividades, tem sido a preocupação constante de seu coordenador, a valorização das crianças e adolescentes, fazendo com que os integrantes da orquestra sejam reconhecidos pelos melhores violoncelistas do cenário musical nacional e internacional

O trabalho musical desenvolvido com as crianças e adolescentes desta Orquestra permitiram participações em programas de radio e televisão tais como BBC TV 24 – UK, BBC RADIO 4 – UK, BBC World Service – UK, National Public Radio – USA, TV. Educativa – BR, Sem Censura (TV. Cultura), Gente Inocente (TV. Globo), Jo Onze e Meia (SBT), Programa Ação (Tv. Globo) e  Programa Timbres (Rádio Cultura).

O Prof. Dr. Áureo Defreitas foi entrevistado pelas revistas internacionais Patek Philippe International Magazine (2003), Classic FM (abril 2004), Entertainment Portfolio (2005), Strad Magazine (2006), Lê Violoncelle (2007). Os integrantes da Orquestra de Violoncelistas da Amazônia vem representando o Estado do Pará em turnês realizadas no Brasil e exterior: Terruá Pará 2011; Turnê China 2010; Conexão Vivo 2010 e 2011; Turnê Holanda 2004; Turnê Estados Unidos 2002; Turnê Rio de Janeiro 2004, 2001, e 2000; Encontro de Violoncelistas de Cabo Frio 2001/2000; Temporada de Música de Inverno de Musica de Petrópolis 2001/2000; Festival de Inverno de Friburgo 2001, Projeto Candelária 2004/2001/2000; Concertos para a Juventude 2001, Encontro de Violoncelistas da Amazônia – Belém do Pará 2001/2000/1999/1998; Festival Internacional de Música de Câmera de Belém do Pará 2001/2000/1999; e Oficina de Música de Curitiba 2000.

A seleção da Orquestra para a conferência da ISME, mostrou mais uma vez a qualidade do trabalho que vem sendo desenvolvido no Programa Cordas da Amazônia da Escola de Música da Universidade Federal do Pará. Atualmente o grupo é composto essencialmente por crianças e adolescentes, que se apresentam com repertório inovador que reúne compositores da música erudita, música popular Paraense, e rock “n” roll. Além da inovação no repertório, a orquestra inova também nas parcerias, tendo como convidados para seus shows nos últimos anos as bandas: Madame Saatan, La Pupuña, e Álibi de Orfeu. Além de se apresentar com o renomado pianista João Carlos Martins, a OVA conta com participações de Edmar Rocha, Joelma Klaudia, Gabriela Florenzano, Juliana Sinimbú, Márcia Aliverti, e Alba Maria. Com apresentações em palcos ao ar livre, em 2010 a OJVA tornou-se referência na agenda cultural de Belém. Depois de várias apresentações em eventos populares, a OVA tornou-se o primeiro grupo de adolescentes a participar profissionalmente do CONEXÃO VIVO 2011, BAIACOOL JAZZ FEST 2011, TERRUÁ PARÁ 2011, e FEST MUSIC 2010.

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“…E o povo na rua cantando. É feito uma reza, um ritual…”

O samba da Portela - Veja o e ouça o samba aqui - que vem por aí, é pra fazer de 2012 um ano mui digno, senhoras e senhores. De Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Maximo, Toninho Nascimento e Naldo.

Wanderley Monteiro e Luiz Carlos Máximo já foram parceiro em “Vestida de Azul”, que Juliana Amaral gravou em 2007 no disco Juliana Samba, Produzido por Moacyr Luz.

Falando em Juliana Amaral, em janeiro a moça entra no estúdio para gravar novo disco. Falando em carnaval, a Portela… fazia tempo que eu não ouvia um samba como esse. Sempre que a Clara Nunes é evocada ela vem, né?

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Ceumarley em Budapeste

A Ceumar se apresentou com a Orquestra Sinfônica de Budapeste.  Assistimos ao vivo e babamos aqui na mesa ouvindo a patroa cantar “Melodia Sentimental”. Sandrinha e eu

Ela disse “Sou de Minas Gerais”. Me lembrei do compositor da “esquina”: “sou o mundo, sou minas gerais”

Depois da “Melodia” de Villa Lobos, pegou o violão cheio de adesivos e tentou explicar o que era um maxixe de Marcelo Tupinambá.

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Feliz 2012

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O filme do Coutinho e o disco de Jussara, por Paquito

Terra Magazine – Quinta, 15 de dezembro de 2011, 07h59 Atualizada às 08h03

As Canções de Eduardo Coutinho, Jussara Silveira e o Cosmos

Paquito
De Salvador (BA)

A concepção é simples. Pessoas entram individualmente no que parece ser um estúdio, sentam numa cadeira, contam histórias sobre a vida delas e cantam canções que remetem às histórias que contam. Eduardo Coutinho, o diretor, é o entrevistador. Em filmes como Edifício Master e Jogo de cena, ele também faz as pessoas falarem e tira delas, se não o melhor, demonstrações de humanidade, transformando-as em poesia. Não poesia pura, mas contaminada de vida e tudo que remete à.

No caso deste As canções, o que muda é o fato de as pessoas cantarem canções de Jorge Ben, Roberto & Erasmo, Tom & Chico, Lyra e Vinicius, Noel Rosa, a versão do bolero Perfídia e até, em dois casos, canções compostas pelas pessoas que falam. As canções são conhecidas, mas quem as canta, não. As canções dão o norte, e as pessoas contam histórias fortes, marcantes que, num programa tipo o de Faustão, talvez soassem banais. A diferença é o recorte. Quem faz o recorte é Coutinho, de fala mansa e rouca, que se irmana com o entrevistado, o que faz um paralelo com o programa Ensaio, em que o diretor Fernando Faro, o Baixo, também faz as pessoas falarem de si e das canções.

No caso do Ensaio, quem fala são profissionais de música, que alcançaram alguma notoriedade fazendo ou cantando canções. Faro nos faz ver o mais íntimo deles, docemente. Coutinho, por sua vez, ao focar em não profissionais, gente comum, mostra quão profunda é a ligação das canções com a vida das gentes e, talvez por isso, é que se chame canção popular a esse tipo de arte que amplamente define o Brasil, no grande e no pequeno.

Se o norte é a canção, o esteio é a vida das pessoas, de onde vêm as canções, e para onde elas voltam, depois de feitas. O que Coutinho faz é dar visibilidade a esse pano de fundo, ao bastidor da vida, o invisível, que não aparece no jornal, e, quando aparece, é reduzido, vira mundo-cão. Nos reality-shows e programas de TV, a exibição de intimidade faz a vida da gente comum – e que almeja o incomum – ser apenas um jogo enfadonho – para dizer o mínimo – e a vida de gente famosa, uma sucessão de motivos fáceis para se chorar.

Coutinho dá a impressão de ser fácil porque é simples, mas, ao dar luz e poesia ao óbvio, ele é o melhor.

Falar de canções, e da maneira como Coutinho as trata, me remete à Jussara Silveira e, na volta da sessão do filme, pus seu Cd novo, Ame ou se mande, pra ouvir no carro. Anna, minha namorada, se emocionou de cara. Eu, que conheço Jussara há muitos anos, venho me emocionando há tempos com seu canto, suas escolhas, sua leveza sem prejuízo da intensidade. Jussara trata as canções inicialmente com gentileza, e não canta qualquer canção, pois precisa conhecê-las como se conhece uma pessoa, para depois, se tornar ou não íntima dela.

Quando vem a intimidade, Ju dá o melhor de si à canção, e a recíproca também é verdadeira. Jussara mantém, com as canções que escolheu pra cantar, histórias de amor. Assim é com Marcianita, que ela canta há anos, mas nunca havia gravado. Esta música latina, cuja versão brasileira foi gravada por Sérgio Murilo, nosso primeiro rei do rock brasileiro, pré- Roberto Carlos – e também por Caetano, em 1968, auge da Tropicália – graças ao arranjo de Sacha Amback (piano e sintetizadores) e Marcelo Costa (bumbo, caixa, atabaque e caxixi), está mais latino e balançado, reencontrado com suas origens passionais.

Sacha e Marcelo são, além de Ju, os únicos músicos em todo o disco: teclados e percussões, o que dá unidade e beleza à variedade de autores que Jussara escolheu pra interpretar. E ela está cada vez mais intérprete, daí a razão da emoção instantânea de minha namorada: a expressividade do canto de Jussara.

No mais, apesar do título Ame ou se mande ser associado mais facilmente à temática do amor e desamor, muitos dos versos apontam o olhar e o canto para os céus, o espaço sideral e as estrelas, em conjunção com o Cosmos. Os poetas e letristas sabem: somos filhos das estrelas, estamos aqui graças ao sol, como bem diz O dia que passou que, citando a canção mais solar de todas, Here comes the Sun, dos Beatles, juntou a vocação pop de Toni Costa, que fez a melodia, com o construtivismo e enxutez de Ariston, autor da letra, e um dos autores a que Jussara se mantém mais fiel.

Quando Ju me entregou seu disco, era apenas uma cópia da matriz, sem capa, e eu o ouvi inteiro durante a noite, sozinho, cismando feito o poeta com saudades da terra amada. As faixas eram objetos não identificados. Eu não sabia, com exceção das conhecidas, os autores das músicas, e fiquei impressionado com a letra de Tenho dó das estrelas. Perguntei, no dia seguinte, à Jussara, quem era o letrista de versos como “Tenho dó das estrelas/ luzindo há tanto tempo (…) não haverá um cansaço das coisas (…) um cansaço de existir?”

O letrista era Fernando Pessoa, musicado por Zé Miguel Wisnik.

Madre Deus, de Caetano, Contato imediato, de Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carlinhos Brown, e Marcianita, de Marcone, Alderete e Fernando César, também falam de estrelas e viagens siderais, quase contagiando versos de outras do repertório, mais especificamente românticas: “a procura de amor/ por onde for”, de Doce esperança, de J. Velloso e Roberto Mendes, adquire uma conotação mais ampla, e “a voz do coração”, de Ronaldo Bastos e Celso Fonseca, dá a impressão de alcançar velocidades interplanetárias pra se fazer ouvir.

É como se as canções dessem as mãos umas às outras pra passear no disco-voador de Jussara e, assim como se irmanam os cantores amadores do filme de Eduardo Coutinho, também se assemelham as canções, os cantores, os seres, tudo que existe e tem fim: nós, poeira de estrelas.

Paquito é músico e produtor.

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Eita, orgulho da porra!

A CIRCUS produziu dois shows do Tom Zé. “Instalação: Páginas Amarelas” com cenografia do Estúdio Risco. Não basta ser artista, tem ser Tom Zé. “E não se morre mais!”

foto: Cris Terribas

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Marcelo Jeneci fecha 2011 no Sesc Ipiranga

Autor de “Feito Pra Acabar”, um dos melhores discos de 2010 segundo veículos como a revista Rolling Stone, Marcelo Jeneci se apresentou na última edição do Rock in Rio e já é bicampeão na categoria música do ano do Prêmio Multishow. Eleita pelo júri especializado a Melhor Música de 2011, “Felicidade”, a faixa que abre o álbum de estreia de Jeneci, acaba de ganhar um video-clipe e está na trilha sonora da nova novela das sete da Globo, “Aquele Beijo”. Recentemente, o compositor e multiinstrumentista (Jeneci toca piano, acordeon e guitarra) levou seu show e disco para os Estados Unidos, a convite do Itamaraty. Agora, está de volta ao Brasil para se apresentar no Ginásio do Sesc Ipiranga ao lado do maestro Arthur Verocai.

Com produção de Kassin e arranjos de orquestra de Arthur Verocai, o album “Feito Pra Acabar” traz treze faixas autorais, a maioria em parceria com nomes já conhecidos do público, que marcam a primeira safra de composições do paulistano. A voz feminina que pontua todo disco de Marcelo Jeneci é da cantora paulistana Laura Lavieri.

A trajetória de Marcelo Jeneci até o lançamento de “Feito Pra Acabar” é marcada por parcerias e histórias com grandes nomes da música nacional. Além de compor canções com Chico César, Jeneci assina músicas com Vanessa da Mata – o hit “Amado”, uma das músicas mais tocadas de 2009 –, Zé Miguel Wisnik e Paulo Neves (“Tempestade Emocional”), Luiz Tatit (“Por Que Nós?”) e Arnaldo Antunes (“Quarto de Dormir”). Também caiu nas graças do cantor Leonardo com a composição “Longe”, outra parceria do jovem paulistano com Arnaldo Antunes. Zélia Duncan, que gravou canções inéditas de Jeneci em seu último disco, engrossa o coro de seus fãs e parceiros.

FICHA TECNICA:

Marcelo Jeneci – voz, sanfona, teclados, guitarra; Laura Lavieri – voz; Régis Damasceno – baixo e violão; João Erbetta – guitarra e violão; Estevan Sinkovitz – guitaar, violão e bandolim; Marcelo Effori – bateria;

Arthur Verocai – regência

Cordas: Alex Braga Ximenes – violino; Nadilson Gama – violino; Alexandre de Leon Zappelini – viola; Sergio Henrique Schreiber – violoncelo; Metais: Tiquinho – trombone; Fernando Bastos – saxofone; Paulo de Viveiros – trompete

Equipe Técnica:

Marcelo Ariente e Ramiro Melo – som; Franja – luz; Fábio Farsa e Brian – roadies; Produção: Pessoa Produtora – Veronica Pessoa, Ana Paula Veríssimo e Julia Dranger; Circus Produções – Guto Ruocco

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Sócrates Brasileiro

Coluna de Zé Miguel Wisnik, publicado no jornal O Globo, 10/12/2011

Sócrates Brasileiro

Quando eu fiz “Sócrates Brasileiro”, um samba propositalmente longo e
desengonçado como o personagem que exaltava, gravado por Ná Ozzetti
em 1990, uma das coisas que eu queria é que a canção me levasse de
alguma maneira a conhecer pessoalmente o Doutor. Isso acabou por
demorar muito tempo, mas afinal aconteceu vinte anos depois, no ano
passado. Certos jogadores são figuras míticas para quem cresceu vendo
futebol, e que um universitário pise o gramado dos deuses, tornando-
se um deles, é uma fantasia raramente realizada. Tostão realizou o
improvável posteriormente, tornando-se psicanalista depois de jogador.
Sócrates, ao contrário, corria do plantão hospitalar para o campo, e me
disse que o único verdadeiro pique de sua carreira ele deu chegando
atrasado ao Pacaembu para jogar pelo Botafogo de Ribeirão Preto,
comprando ingresso na bilheteria e procurando o vestiário como quem
corresse para a emergência.

Transcrevo aqui o que escrevi sobre ele em “Veneno remédio – O futebol
e o Brasil”. O “Doutor” Sócrates, capitão da seleção de 1982, paraense-
paulista dividido entre o futebol e a carreira de medicina, tinha aderido
tardiamente ao futebol como profissão total. Mais longilíneo ainda do
que Cerezo e Falcão, ostentando uma desenvoltura exuberante sobre
um equilíbrio entre firme e periclitante, era surpreendente seja no passe,
no drible ou no chute – como se não chegássemos nunca a saber bem
o que esperar daquele genial gafanhoto ambulante que não parecia
ostentar o inteiro domínio de sua disposição física. Muito alto e de pés
pequenos, com dificuldade para virar rapidamente em direções opostas,
deu uma dimensão inesperada ao passe de calcanhar, que explorava
em condições inimagináveis, incluindo lançamentos longos – como se
fosse um Curupira adulto e esclarecido, capaz de investir de um sentido
positivo o ponto fraco de Aquiles. A propósito, o pai tinha lhe dado o
nome de Sócrates Brasileiro, simbolizando o desejo de vê-lo crescer como
um filósofo nacional. Desejo realizado, ainda que pela culatra: Sócrates
Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, cujo nome completo já
compõe, por si só, um samba-enredo, nunca abandonou a barba filosofal
e a disposição pensante: “deu um pique filosófico ao nosso futebol” e

assumiu uma posição iluminista, ligada à promoção da cultura letrada e da
consciência política (sem deixar de lado os eflúvios dionisíacos da cerveja).
Sabendo que o jogador teria se interessado pela leitura de Platão, além de
Maquiavel e Hobbes (talvez na sua malograda passagem pela Fiorentina),
o italiano Giancristiano Desiderio comentou com argúcia: “que Sócrates
tenha, afinal, lido Platão, é uma inversão histórica comparável a um toque
filosófico de calcanhar”.

Quando fomos no mesmo avião para Curitiba, para participarmos do
debate que nos aproximou pessoalmente, reparei que ele lia “Tudo o
que é sólido desmancha no ar”, de Marshall Berman. Estava interessado
certamente na parte que falava de Marx, mas não deixava de atravessar
as que falavam de Baudelaire e Goethe. Não tinha pose de nenhum tipo, e
cultivava, aliás, a anti-pose, desmontando as que quisessem colocar nele
e aquelas vestidas por alguém outro. Punha logo a bola no chão, pra usar
aqui uma expressão futebolística. Era sério e obstinado nas questões que
o inquietavam, na perspectiva de uma emancipação social, na superação
da barreira entre as classes, e no papel macropolítico que via para a
educação esportiva.

No fundo, acho que tinha muito de saturnino – característica simbólica
ligada ao sentimento aguçado e melancólico dos limites, que uma tradição
antiga atribuía justamente, creiam ou não, aos filósofos. Mas tudo em
nome da beleza criativa do futebol e da vida, que ele defendia atacando.
Num diálogo público de que participamos em Londres na época da Copa
de 2010, no Queen Elizabeth Hall, chegou a defender utopicamente uma
alteração das regras futebolísticas, preconizando a redução do número de
jogadores para sete, todos atacantes, de maneira a expulsar da república
do futebol, diferentemente de Platão, todos que não fossem os poetas da
bola.

“Salve aquele que desempenhou / e entre a anemia a esperança / a loteria
e o leite das crianças / se jogou”. Eu acho justo esse verso do meu samba,
em que o gol vem não só de quem jogou, mas de quem se jogou. Sócrates
pertenceu a uma geração de jogadores brilhantes e excepcionalmente
pensantes, sob a égide de Telê Santana, como Zico, Júnior e Falcão. Nada
das numerologias regressivas e supersticiosas de Zagallo, do academismo

abstrato de Parreira, da cabeça dura de Dunga, nesse período feliz de
uma derrota que só honra a nossa memória. Entre eles, Sócrates é o que
se jogou na vida, inconformado por ela não ser melhor, mas apaixonado
por ela. A alegria e a liberdade eram para ele a prova dos nove para se
jogar bem. Elas tinham a ver com a integridade de quem o faz. E, para ele,
eram inseparáveis dos prazeres que dão sentido a tudo. Um custo fatal,
em forma da doença provocada pelo alcool, ele não negou em nenhum
momento, sem a menor intenção de apagar seus próprios passos.

No debate em Curitiba, ouviu minhas canções (havia um piano posto
ali pela organizadora), deitou-se em baixo do piano, fez estrepolias,
perguntou com sinceridade se eu era feliz ou triste, e que canção eu
cantaria quando me olhasse no espelho, perdido e sozinho, numa cidade
estrangeira. A morte precoce dá um toque trágico à história única
desse “dançarino pensador, / sócio da filosofia, da cerveja e do suor”,
que, “com destino e elegância, / ao tocar de calcanhar o nosso fraco, a
nossa dor , / viu um lance no vazio, herói civilizador”. O Doutor.

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obrigado, Sócrates

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Sobre o documentário “Tim Tim Por Tim Tim”

Zé Miguel Wisnik escreveu sobre documentário “Tim tim por Tim Tim“, narrado por Rômulo Fróes, da Rádio Batuta do Instituto Moreira Salles, no Segundo Caderno do Jornal O Globo, dia 26 de novembro de 2011.                                       

LEVEZA PROFUNDA

Embora já tenha entrado para a história enquanto mito, muitos não entendem o porquê da importância desmesurada atribuída por músicos e críticos a João Gilberto. O documentário radiofônico “Tim tim por tim tim – A música de João Gilberto”, realizado pela Radio Batuta e acessável através do site do Instituto Moreira Salles, é a mais completa oportunidade de esclarecer essa dúvida, onde ela exista. É claro que não adianta explicar a quem não se dispõe a ouvir, e, quando é assim, também não adianta escutar nenhum desses sete programas. A escuta musical e a capacidade de fazer silêncio interno são dois bens raros, hoje, e essenciais, no caso. Mas, nas suas mais de três horas de duração, o documentário faz de fato, tim tim por tim tim, uma radiografia largamente exemplificada da palavra cantada com violão, tal como foi inventada por João Gilberto. 

O roteiro é de Paulo da Costa e Silva, acompanhado por Francisco Bosco, muitos são os especialistas convidados, muitas as músicas ouvidas, e muitos os momentos de zoom sonoro sobre os procedimentos rítmicos, melódicos, harmônicos, prosódicos, timbrísticos, sobre a técnica instrumental de João Gilberto, sobre a poética deste que fez da canção uma obra de arte total. Embora eu também tenha participado dando entrevista, e conheça o trabalho de vários dos críticos envolvidos, o efeito de conjunto soa novo mesmo para quem já está imbuído daquilo que a série tem a nos dizer.

Equívocos tradicionais como o que vincula a matriz do canto de João Gilberto ao de Mário Reis são desfeitos conceitual e sonoramente. Embora ambos adotem uma voz com pouco volume, as sílabas, na dicção vocal de Mário Reis, são curtas, precisas e separadas, como golpes de palheta num instrumento de sopro. As de João se alongam, ligadas, e têm como horizonte o arco inteiro da frase melódica, que ele sustenta muitas vezes sem interrupção com um fôlego respiratório incomum, o que fica claríssimo nos exemplos apresentados. Nesse sentido, a sua ligação originária é muito mais com Orlando Silva, que João tomava como modelo no início da carreira, do que com Mário Reis.  

Mantendo muito vivo o espírito da frase melódica, e cantando com a aparente descontração de quem conversa, João Gilberto não afoga as palavras em ornamentos vocais – elas ficam bem à tona da música, como é sabido. Ao mesmo tempo, elas se tornam matéria musical em direção oposta, porque ele explora as possibilidades percussivas das consoantes oclusivas e das sibilantes interligadas, dilata e contrai as vogais, usa o som da própria respiração como apoio rítmico, deita e rola nas potências fônicas da língua, fazendo essas sutilezas todas inseparáveis da música.

Em seu depoimento, Lorenzo Mammì diz que, ao cantar “Estate”, João faz uma espécie de caleidoscópio de todos os sotaques da língua italiana, como se a dissecasse “pedacinho por pedacinho”, cada consoante, cada vogal, cada sílaba, e a reconstituísse ao modo da apropriação estética que ele mesmo faz da língua portuguesa cantada no Brasil.

Sobre o violão, ficamos sabendo que João chama a nota mais grave tocada com o polegar da mão direita, à maneira da função do surdo no samba, de “o garoto”, e chama carinhosamente as notas mais agudas do acorde, tocadas com o indicador, o médio e o anular da mesma mão, de “as meninas”. Segundo Walter Garcia, “o garoto” se comporta dando apoio regular e previsível ao tempo, como se fosse um surdo “esfriado” pela sua regularidade, enquanto “as meninas”, correspondentes ao tamborim e ao cavaquinho, se deslocam pelos contratempos mais surpreendentes. A voz ocupa, então, os espaços deixados estrategicamente vazios pelo violão, como se ela entrasse por eles fazendo parte da dança flutuante dos acordes.

A relação entre a voz e o instrumento é toda feita de interações sutis onde os dois planos se encontram e desencontram num fraseado aéreo, flutuante, suspenso, e onde as noções de tempo forte e tempo fraco, de tensão e repouso, de figura e fundo, são ambivalentes e oscilantes. O mais interessante ainda, no caso de “Tim tim por tim tim”, é que tudo isso fica audível em detalhe e em panorama, acompanhamos o modo como esse estilo se formou, e ouvimos claramente como palavra, música, voz, violão se tornaram, em João, uma coisa só, de complexidade e transparência únicas, sem deixar de ser a pura decantação de um gênero muito nosso conhecido, o samba.

Num texto já clássico, Lorenzo Mammì dizia que o jazz é “vontade de potência”, e a bossa nova, “promessa de felicidade”. Aqui ele desenvolve mais a ideia, dizendo que o jazz respira por todos os poros um tempo quantitativo, como sublimação criativa do trabalho industrial, correspondente à vocação produtivista da cultura norteamericana. A bossa nova, e o estilo de João Gilberto, poriam ênfase, segundo ele, sobre o não quantificável, sobre o ideal de um tempo improdutivo, aquele que se abre no momento em que não estamos fazendo nada. O mesmo Lorenzo já sugeriu, num outro texto que comentei aqui, que João Gilberto é a expressão de um momento que está entre a extraordinária abertura do pós guerra à uma arte de massas de alto nível e o consumismo desenfreado que se instalou depois. É nesse casulo que ele se esconde, é dali que ele protege o microcosmo espantoso que inventou.

Sabemos que as culturas produzem normalmente coisas leves e superficiais por um lado, e coisas profundas e pesadas por outro. O Brasil atual, além de superficial e leve, é muitas vezes pesado e superficial. João Gilberto está no ápice do nosso veio mais original, a leveza profunda.                                      

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Jussara Silveira, por Lauro Lisboa Garcia

Jussara acha o céu no chão

25 de novembro de 2011 | 3h 07

O Estado de S.Paulo

Montar repertório é missão a que poucos intérpretes brasileiros se dedicam com tanta precisão quanto Jussara Silveira. Em seu novo CD, Ame Ou Se Mande (Joia Moderna), ela confirma que é nesse âmbito que se dá seu trabalho de compositora, além de cantar com uma delicadeza celestial.

No centro da questão está a pessoa, em conflito com o mundo real, buscando entendimento na contemplação do cosmo. Há até um poema de Fernando Pessoa (Tenho Dó das Estrelas) musicado por Zé Miguel Wisnik. De Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carlinhos Brown Jussara canta divinamente Contato Imediato, ligada a Marcianita, dos primórdios do rock. Madre Deus (Caetano Veloso) também tem uma “conversa com o céu”: “Frente ao infindo/ Costas contra o planeta”.

O Dia Que Passou (Luís Ariston/Toni Costa) cita Here Comes the Sun (George Harrison) e, em Babylon, Zeca Baleiro diz que “o céu é aqui”. É assim que Jussara sai do chão e volta para se ver por dentro, localizada nessas canções de amor cósmico e lugares abstratos. Começa por A Voz do Coração (Celso Fonseca/Ronaldo Bastos) e encerra a jornada com Dê Um Rolê (Moraes Moreira/Galvão), afirmando que é “amor da cabeça aos pés” e “que a vida é boa”.

“A ideia do CD surgiu com o tema pessoa, onde se localiza a pessoa nos tempos de hoje, em que a comunicação muito instantânea, o capitalismo e o consumo tomaram conta”, diz a cantora. O poeta Pessoa está aí não pelo sobrenome, mas porque “ele também fala disso, da pessoa de corpo e alma”.

Nessa falta de ponto de apoio, dos “sem-lugar”, “a pessoa se localiza na escolha do que quer se seja, de amar, de ficar ou de se mandar, ou de querer mesmo o consumo (como Zeca fala em Babylon), ou de buscar o amor para além da Terra”. Para ela é algo muito simples pensar sobre isso, sem pretensões filosóficas. “Apesar dessa conversa com o infinito, com a possibilidade de eternidade, o que quero dizer é que a vida é aqui e agora.”

A versão de Ariston para Love Me or Leave Me (Walter Donaldson/Gus Kahn), que dá título ao álbum, não foi liberada por questões autorais, mas está no show, em que Jussara canta acompanhada por Marcelo Costa (percussão) e Sacha Amback (teclados), que produziram o CD no mesmo formato. O encontro do trio deu tão certo que eles foram convidados a gravar outro álbum, só de canções angolanas, previsto para sair em 2012. / L.L.G.

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Ame ou se mande em São Paulo Rio

JUSSARA SILVEIRA LANÇA SEU NOVO CD, AME OU SE MANDE, EM SÃO PAULO E NO RIO DE JANEIRO
Na próxima semana acontecem os shows de lançamento do CD “Ame ou se Mande” sexto disco de Jussara Silveira, produzido em parceria com Sacha Amback e Marcelo Costa. O show traz composições de Celso Fonseca e Ronaldo Bastos (A Voz do Coração), Cezar Mendes e Capinam (Ifá), André Carvalho e Quinho (Bom), Toni Costa e Luiz Ariston (O Dia que Passou), Roberto Mendes e J. Velloso (Doce Esperança) e um poema de Fernando Pessoa musicado por Zé Miguel Wisnik (Tenho Dó das Estrelas).
Confira as datas e programe-se!
São Paulo: SESC Bom Retiro | participação especial Zé Miguel Wisnik
26 e 27 de novembro de 2011, sábado às 19h, domingo às 18h
Alameda Nothmann 185, Bom Retiro, São Paulo | 11 3332 3600
ingressos: R$ 24,00 [inteira] R$ 12,00 [usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante] R$ 6,00 [trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes]
classificação 12 anos
mais informações sescsp.org.br
Rio de Janeiro: Teatro Rival Petrobras
28 de novembro de 2011, segunda-feira, às 19h30
Rua Alvaro Alvim 33, Cinelândia, Rio de Janeiro | 11 2240 4469
Ingressos: R$40,00 [inteira] R$30,00 [primeiros 200 pagantes] R$20,00 [meia]
classificação 16 anos
mais informações rivalpetrobras.com.br
joiamoderna.com.br | circusproducoes.com.br

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3 opiniões sobre a situação na USP

Três textos refletindo sobre a situação na USP.

Cynara Menezes

08.11.2011 16:55

Não-carta ao ex-presidente FHC

Foto: Ag. Brasil 

Caro ex-presidente e ex-professor da USP Fernando Henrique Cardoso:

Não lhe escrevo essa carta, na verdade não existe carta nenhuma, porque falar de maconha é um tema proibido em nosso país. Nos últimos anos, o senhor tem inclusive contribuído para trazer este debate à tona, ao propor publicamente a descriminalização da maconha em palestras e com o documentário “Quebrando o Tabu”. Mas nem mesmo o senhor, sendo idolatrado pela mídia do jeito que é, tem sido capaz de romper a hipocrisia que reina no Brasil em torno deste assunto. Até marcha pela descriminalização é proibida por aqui, como se a liberdade de expressão não valesse para a “erva maldita”.

O senhor deve ter assistido à tragédia da Polícia Militar invadindo a Universidade de São Paulo, onde estudou e ensinou. As cenas foram tristes para quem, como a sua geração, lutou pela democracia: soldados apontando fuzis na cara de estudantes desarmados. É verdade que eles haviam tomado a atitude extrema de invadir a reitoria da Universidade, mas veja só como tudo começou. Há duas semanas, policiais que estavam ali para defender a comunidade universitária de assaltos e estupros, abordaram três garotos que estavam fumando um mísero baseado no estacionamento da Faculdade de História e os levaram para a delegacia. Seguiram-se conflitos e protestos que culminaram na invasão da reitoria.

Escrever estas palavras, eu perguntaria ao senhor: quem provocou quem? Quem eram os donos da casa e quem eram os forasteiros? Quem chegou disposto a criar confusão reprimindo hábitos das pessoas que fazem parte daquele lugar? Fumar maconha é proibido por lei e não posso falar isto para um ex-presidente, de forma alguma, imagina. Mas se eu pudesse, diria que aposto que, em tantos anos na USP, o senhor deve ter visto inúmeras vezes cenas semelhantes às que os policiais reprimiram. Ou, no mínimo, sentido o cheiro familiar dos cigarros de maconha sendo acendidos, sempre discretamente, aqui e ali em recantos aprazíveis da Cidade Universitária.

Se a hipocrisia reinante me permitisse, eu argumentaria que fumar maconha no campus é um hábito disseminado e tolerado há décadas não só na USP como em quase todas as universidades do País – e, desconfio, do mundo. É como se o ambiente universitário fosse um oásis, onde o jovem em formação tem a liberdade para conhecer coisas novas, existencial e intelectualmente falando: livros, pessoas, música, cinema, arte. E, algumas vezes, maconha. De causar estranheza naquele local, é, isso sim, a presença de policiais militares fazendo a ronda: a rigor, a segurança do campus não deveria ser militarizada, mas de responsabilidade de uma Guarda Universitária.

Manifestantes pela legalização da maconha em protesto no início de 2011. Foto: Flickr/Mari Ju 

Mas já que o governador, do seu partido, e o reitor, alarmados com o assassinato de um aluno dentro do campus, acharam por bem assinar um convênio com a Polícia Militar, eu gostaria muito de pedir ao senhor, mas não posso, que pudesse lhes aconselhar um pouco de bom senso. Jamais escreveria absurdos assim, de jeito nenhum, longe de mim. Mas o ideal seria que o senhor, em primeiro lugar, lembrasse a eles que um dia foram jovens como os estudantes que foram levados à delegacia naquele primeiro momento. Tenho certeza que muitos pais como eu não gostariam de ver seus filhos sendo presos por um delito tão insignificante quanto fumar um baseado junto a um grupo de colegas de faculdade.

É uma pena que não possa lhe dizer também que pondere com o governador e o reitor que policiamento no campus é para coibir assaltos e estupros, não para reprimir estudantes que estão pacificamente fumando um beck e conversando sob uma árvore qualquer. Que correr atrás deles é uma perda de tempo e é uma incitação ao conflito, que voltará a ocorrer em situações similares. Não é porque policiais apontaram armas na cara de estudantes que os estudantes deixarão de fumar baseados –ou de reagir quando forem reprimidos. E, olha só, o senhor nem precisaria aparecer, poderia fazer isso tudo discretamente, bem ao gosto dos que tentam dourar a pílula e fingir que a maconha não existe. Enfim, não posso lhe falar nada disso: é ilegal, imoral e ainda por cima tira votos. Mas, ah, se eu pudesse…

  08.11.2011 – 14:53

USP: autonomia seletiva

Por LEONARDO CALDERONI E PEDRO CHARBEL*

 
Tem-se dito pelos que defendem o convênio entre a USP e a PM que não se pode tratar a Cidade Universitária como algo que está fora da cidade de São Paulo.

A própria reitoria tem feito discursos nesse sentido.

E é verdade: a USP faz parte do território paulistano, paulista e brasileiro, mesmo sendo uma autarquia.

Ter autonomia, afinal, não é o mesmo que ter soberania.

Agora, se a Cidade Universitária está sujeita a todas as leis municipais, estaduais e nacionais e deve ser tratada como qualquer outra parte do território, por que ela se fecha – material e intelectualmente – ao resto da sociedade?

Por que a mesma reitoria que agora afirma a não-soberania da USP teve o poder, há alguns anos, de vetar a construção de uma estação de metrô dentro do campus?

Por que em uma universidade pública, financiada pela sociedade, esta mesma não pode usufruir de seus espaços livremente sem uma carteirinha?

A USP virou uma terra de autonomia seletiva.

Na hora em que convém a determinados interesses, há sim bastante autonomia para afastar a “gente diferenciada” que viria de metrô para dentro dos muros da universidade.

Mas na hora em que não interessa, a autonomia some e o “campus é parte da cidade”.

O discurso da segurança serve ora para defender o segregacionismo, ora para defender a integração.

Aparentemente estamos condenados a sermos eternos reféns das “razões de segurança”.

Seria realmente desejável que os que defendem a integração da Cidade Universitária nesse caso, fizessem-no em tudo mais.

Isso porque a Cidade Universitária não deixará de ser uma “ilha” por causa de um convênio com a PM.

Deixará de sê-lo no dia em que não for hostil aos que “não possuem carteirinha”.

Deixará de sê-lo quando a comunidade São Remo, ao lado da USP, deixar de ser vista como antro de criminalidade ou fonte de mão de obra para os serviços terceirizados da universidade; e passar a ser vista como uma comunidade que detém o direito sobre aquele espaço assim como qualquer outro cidadão, afinal não é a Cidade Universitária um espaço como qualquer outro dentro da cidade de São Paulo?

Acima de tudo, a USP deixará de ser uma “ilha” quando realmente for uma universidade pública, na qual toda a sociedade possa usufruir do seu espaço e o conhecimento lá produzido não atenda apenas às demandas do capital privado – o que é legítimo, mas de modo algum suficiente.

O papel da universidade deve superar o Ensino e a Pesquisa.

É necessário que haja Extensão, isto é, que se trave um diálogo horizontal entre o conhecimento universitário e o restante da sociedade, em um processo que traga a sociedade para dentro da universidade, e vice-versa, tanto física quanto intelectualmente.

Mais do que uma questão de espaço e jurisdição, está em debate, portanto, o caráter público da USP.

É preciso desvincular as discussões recentes de casos pontuais e associá-las a algo muito maior.

No limite, a principal discussão não deve ser o convênio entre USP e PM em si, mas a maneira como este se deu e como são tomadas todas as decisões relevantes da política universitária, dentre as quais este convênio é só mais uma.

Ao contrário do que afirma a reitoria, esse convênio não foi decidido por uma “ampla maioria”, simplesmente porque nenhuma decisão importante na USP é tomada de maneira democrática.

Novamente reina a autonomia seletiva: a universidade não está acima da lei quando se trata de polícia, mas segue desrespeitanto determinações de leis federais, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, no que tange aos seus processos deliberativos.

Não à toa, a Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social da Capital instaurou, nesse ano, um processo para apurar irregularidades na eleição da reitoria e na disposição dos assentos dos docentes em órgãos colegiados constituintes do colégio eleitoral.

Se o convênio USP-PM encontra suas justificativas no factual problema da segurança, a maneira como ele foi firmado já o invalida por completo.

É a mesma maneira pela qual se permite que processos administrativos sejam usados como forma de repressão e controle político.

Advêm da mesma estrutura as iniciativas que ilham o Ensino e a Pesquisa desenvolvidos dentro da USP, na qual os cursos pagos e os convênios com grandes empresas são as únicas formas de diálogo com a sociedade.

Recentemente, a Congregação da Faculdade de Direito da USP declarou o reitor João Grandino Rodas “persona non grata”.

Reconhecer os problemas da gestão Rodas é, sem dúvida, um passo importante.

É fundamental, todavia, entendermos que o reitor que está sob investigação do Ministério Público encontrou na estrutura da própria universidade as possibilidades para assim atuar.

Mais do que uma “persona non grata”, há na USP toda uma “estrutura non grata”.

E no caso da Cidade Universitária, além da estrutura decisória, também a estrutura física precisa ser rearquitetada.

Quando o diálogo não for mais uma promessa vazia e a democracia uma propaganda enganosa, aí sim a USP poderá deixar seus dias de ilha e autonomia seletiva para trás.

A USP não deve mais ser um enorme terreno desértico, hostil e sem iluminação; assim como deve se afirmar enquanto universidade pública a serviço da comunidade.

A universidade deve ser permeável à sociedade em sua totalidade, não só no que diz respeito à polícia – cuja atuação e estrutura devem ser questionadas dentro e fora do campus.

Só assim, a Cidade Universitária será um lugar muito mais seguro e, principalmente, muito mais útil à cidade que a abriga e aos cidadãos que a sustentam.

*Leonardo Borges Calderoni e Pedro Ferraracio Charbel são estudantes de Relações Internacionais da USP.

  ANTONIO PRATA

Assim não, pessoal


Sugerir que a PM possa entrar em todos os lugares, menos em uma universidade, é um vício classista

Em 1998, na primeira semana do meu curso de ciências sociais, na PUC, fizemos um abaixo-assinado. Estávamos em fevereiro, a classe era abafada e pedimos para que a reitoria instalasse um ventilador. Redigimos um texto à mão, coisa de três linhas, e, durante o intervalo, uma colega foi até o Centro Acadêmico digitar e imprimir nossa justa e simples reivindicação. Mal chegou ao CA, um aluno ofereceu-se para ajudar.
Minha amiga voltou uma hora depois, com os olhos arregalados. As três linhas tinham virado um manifesto de duas páginas, que falava do “sucateamento” da educação no Brasil, dos salários dos professores nas escolas públicas, citava Maio de 68 e terminava exigindo: “a) a divisão da turma em dois; b) a mudança para uma classe maior; ou c) ventiladores”.
Sem entrar no mérito do longo manifesto, perguntei que história era aquela de dividir a turma em dois -o que implicaria dobrar o número de professores e custaria mais de R$ 100 mil-, se nós só pedíamos um ventilador? Ela disse que tentara explicar tal raciocínio ao membro do CA, mas ouviu em resposta que era “preciso dar uma alternativa à reitoria, para começarem a discutir”. Alguém sugeriu, então, que pedíssemos: a) um ventilador ou b) um frigobar com Boêmias e Chicabons. Se a reitoria preferisse a segunda opção, não nos oporíamos.
A história seria cômica, não fosse por um detalhe: a educação pública no Brasil era -e é- uma lástima, os salários dos professores eram -e são- uma vergonha. Ao cobrar do reitor de uma universidade privada melhorias no ensino público, contudo -e no abaixo-assinado por um ventilador-, o guerrilheiro do CA não fazia nada pela educação no país, só tornava ridículo, aos olhos dos demais alunos, todos os que levantassem as bandeiras legítimas de um ensino de qualidade -além, é claro, de afastar definitivamente a possibilidade de conseguirmos o ventilador.
A invasão da reitoria da USP me fez lembrar daquele episódio. Que a polícia prenda jovens por consumo de maconha é lamentável. Que jogue gás lacrimogêneo contra os estudantes que protestam contra a prisão é uma violência desmedida. Mas que, em reação a isso, alunos invadam o prédio da reitoria e peçam a proibição da PM no campus é um raciocínio tão equivocado quanto sugerir a divisão da turma em dois, por causa do calor. Ou luta-se para que ninguém seja preso por porte de maconha e que ninguém tome porrada da PM -e acampa-se em frente do Palácio dos Bandeirantes, não na reitoria- ou o que se está exigindo é um privilégio. Sugerir que a PM possa entrar em todos os lugares, menos no campus da universidade, não é um pensamento libertário, é um vício classista: a velha ideia de que, neste país, todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros.
Com esta invasão, os guerrilheiros da reitoria não fizeram mal apenas à discussão sobre drogas e violência policial: ajudaram a tornar ridículos, aos olhos de toda a população, os milhares de outros jovens que, no Brasil e fora dele, lutaram e lutam por causas urgentes e fundamentais; não para serem tratados como cafés com leite.

antonioprata.folha@uol.com.br

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Wisnik in Rio, por Arnaldo Bloch

Wisnik In Rio

Num falecido Tim Festival anos atrás, usei meu carro para chegar à Marina da Glória. Esquecera de levar um CD e meu som não tinha plugue para iPod. Zapeei as frequências e, atraído por percussões estranhas e uma voz pouco usual, estacionei na Rádio MEC enquanto deslizava pelo Parque do Flamengo. O programa era um especial sobre música tibetana medieval. Fiquei impactado pelo canto de um palhaço, que fazia uma espécie de sátira de alguma campanha militar.

Outras canções se seguiram (o Aterro estava com trânsito intenso) e logo me vi inteiramente transportado para um outro tempo: as escalas usadas por aquela música traduziam estados de ânimo que estavam completamente “fora” dos padrões que predominam, até hoje, na música ocidental, apesar de todas as revoluções e trocas que o século XX, a comunicação de massa e as novas tecnologias permitiram.

Quando cheguei à Marina, tive um choque. Qualquer que fosse o palco (Main Stage, com as atrações mais pop, um outro, de novas tendências, ou o Club, de Jazz), tudo parecia soar como variação monótona sobre o mesmo tema. Até solos de free jazz tinham o efeito de soporíferos movimentos de Vivaldi. Via-me sedento daquela atmosfera anterior, do palhaço tibetano. Aquilo era a diferença. Aquilo era o novo. Aquilo era a vida. Todo o resto me apontava o caminho da tumba, num cortejo inevitável.

A lembrança dessa experiência me veio à tona em meio à leitura de “O som e o sentido/Uma outra história das músicas” (Companhia das Letras), de José Miguel Wisnik. O livro tem pouco mais de 20 anos e é acompanhado, desde sua primeira edição, de um CD (“O som e o Sint”) que “ilustra”, através de uma sequência sonora produzida por Hélio Ziskind, os conceitos apresentados pelo autor. Uma espécie de trilha, a ser ouvida livremente, sem obrigação de escuta esquemática à medida da leitura.

Estava com esse livro engasgado desde que o recebi duas décadas atrás. Engasgado porque não soubera encontrar tempo de lê-lo, mesmo certo de que meus sentidos (de melômano e de músico eternamente amador) clamavam por ele.

Afinal, obras fundamentais como “Uma história da Música”, de Otto Maria Carpeaux, e outros panoramas da música através dos séculos não davam conta da amplitude de produção e de significados que os idiomas sonoros dos povos criaram, limitando-se a reverenciar a chamada Música Ocidental como expressão “exata” e “acabada”, “correta”, do universo dos sons.

Comecei pelo disco e tive aquele impacto da audição à Rádio MEC, só que multiplicado por mil espectros. Era como se ali estivesse o livro em casulo, e, ao mesmo tempo, uns 14 bilhões de prevalência das ondas sonoras sobre o caos universal resumidos num trailer, ou num medley, de pouco mais de 30 minutos. Quando comecei a ler o livro, então, no trânsito parado, nos intervalos de tudo, nos silêncios ou sob os ruídos, indo da cama ao piano, do piano à cama, o impacto foi daqueles que a gente tem quando lê “Grande sertão”, “Montanha mágica”, “Fausto” ou “Cidades invisíveis”: a delícia do deslocamento sensorial quando, através da razão (pela clareza da escrita ou a densidade do saber), se atinge a compreensão de fenômenos que antes apenas se intuíam. Por exemplo, que uma escala é a voz de um determinado povo da mesma maneira que o modo de um pássaro cantar traduz o seu estado mais singular em meio ao cosmo. O modo (entendido como uma escolha arbitrária, ou não, de notas, dentro do contínuo sonoro e de suas reverberações naturais) é espelho de uma cultura no momento em que ela busca uma ordem em meio ao caos (ao ruído), sacrificando um certo espectro em benefício de outro (um “outro tempo”) que ressoe fora do tempo “natural”. Essa descrição, muito limitada face à grandeza da obra de Wisnik, é só um tributo: lê-lo às vésperas do Rock in Rio (na última quarta-feira, eu o lia em meio aos bastidores da Cidade do Rock), é dialogar com o mundo num nível de profundidade que dignifica o pertencimento à civilização maior e ao próprio Cosmo. Todos os que, tendo estudado ou não, amam a música, deveriam adotar este livro quase como um guia filosófico que a contém e a transcende. Da mesma maneira com que tantos professores se recusam a ensinar que as escalas nascem dos ciclos de intervalos de quinta (o que corresponde, segundo Wisnik, a decretar que a cegonha traz os bebês), e que médicos não se aprofundam no estudo dos alimentos (tanto que a alopatia hoje precisa da parceria de nutricionistas, que conhecem muito melhor os segredos do que a Terra dá do que a envelhecida endocrinologia), não ler Wisnik é tatear na escuridão do maniqueísmo e do dualismo, ficar preso numa escala fechada, que jamais corre o risco de se abrir para o código da vida.

Arnaldo Bloch, jornal O Globo, 23 de setembro de 2011.

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A critica de Mauro Ferreira para o Cd de Jussara

Resenha de CD
Título: Ame ou se Mande
Artista: Jussara Silveira
Gravadora: Joia Moderna / Tratore
Cotação: * * * * *

Sexto disco de Jussara Silveira, Ame ou se Mande é o registro de estúdio do show que a cantora estreou em fevereiro de 2011 dentro da programação do Tabuleiro da Bahia, projeto do Centro Cultural Banco do Brasil. Produzido pelo percussionista Marcelo Costa e o tecladista Sacha Amback para a gravadora Joia Moderna, o CD soa irretocável como o show e reitera as qualidades desta cantora mineira que explicita sua vivência baiana em Ifá (Cezar Mendes e Capinam) -  tema inédito, envolto em  ligeira aura bossa-novista por Costa e Amback – e em Doce Esperança (Roberto Mendes e J. Velloso), tema no qual Costa evoca a força dos tambores afro-baianos. Inspiradas, tais músicas poderiam figurar no repertório de qualquer disco de Maria Bethânia. Mas estão no melhor disco de Jussara e ganham registro preciso na voz límpida desta intérprete dona de canto preciso, urdido sem firulas e excessos, com a combinação exata de técnica e emoção implícita. Jussara é cantora inteligente, de faro apurado para garimpar e depurar repertório. A propósito, Ame ou se Mande alcança pico de sedução quando Jussara lustra joia do trio tribalista formado por Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte. Contato Imediato é linda, simples e melodiosa balada que ficou escondida em disco de Arnaldo, o mesmo Qualquer (2006) no qual também jazia esquecida O Que Você Quer Saber de Verdade, música que dá nome ao disco lançado esta semana por Marisa Monte. Os efeitos dos teclados de Sacha Amback salpicam sons espaciais ao longo do criativo arranjo. Tivesse o Brasil ouvindos mais atentos, o País celebraria este disco em que Jussara  aborda com a mesma maestria essa pérola tribalista, um tema serelepe como Marcianita (José Imperatore Marcone e Galvarino Villota Alderete em versão de Fernando César) – sucesso há anos entre o público seleto que assiste aos shows da cantora – e sagrada canção de Caetano Veloso, Madre Deus, composta para a trilha sonora de balé do Grupo Corpo, Onqotô (2005), assinada pelo compositor com José Miguel Wisnik. E por falar em Wisnik, é dele a música de Tenho Dó das Estrelas, posta sobre versos reluzentes de Fernando Pessoa (1888 – 1935). Na voz de Jussara Silveira, o jogo de palavras poliglotas armado por Zeca Baleiro na letra da canção Babylon dá a vitória a essa cantora que vai de A Voz do Coração (Celso Fonseca e Ronaldo Bastos) a Dê um Rolê (Moraes Moreira e Luiz Galvão, eco dos desbundes da Gal Fa-Tal e dos Novos Baianos) em onze faixas sem erros ou deslizes. Entre uma e outra, Jussara registra Bom (André Carvalho e Quinho) - samba cool que o emergente André Carvalho, filho de Dadi, lançou em seu primeiro disco, Tempo do Tanto (2010) -  e se banha na luz solar de O Dia que Passou (Toni Costa e Luiz Ariston), faixa na qual Marcelo Costa e Sacha Amback citam (apropriadamente)  Here Comes the Sun (George Harrison). No todo, Ame ou se Mande se impõe como um dos grandes discos de 2011 pelo perfeita sintonia entre produção, arranjos, repertório, o virtuosismo dos dois músicos e o canto preciso de Jussara Silveira. Isso é o que você precisa saber de verdade…
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O DVD Negra de Consuelo de Paula

Ganhei o DVD Negra de Consuelo de Paula, de aniversário. Recebi com uma dedicatória convidativa e que me confortou por horas em frente ao tocador de DVD. A dedicatória fala em “receba estas cançoes que têm o cheiro da nossa terra. Nossas lembranças e nossos sonhos. O verso de agora. A melodia que chora e sorri entre as montanhas de minas.”

É tudo de verdade nesse Negra, de Consuelo de Paula

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Juliana Amaral em Dose Dupla

JULIANA AMARAL CANTA NO SHOW DE RUBENS NOGUEIRA
A incrível parceria entre o paulistano Rubens Nogueira e o carioca Paulo César Pinheiro será apresentada em temporada de três dias no Teatro Décio de Almeida Prado. Os shows contam com a participação da cantora Juliana Amaral (artista da Circus) e do pianista e clarinetista Gil Reyes.
Rubens Nogueira apresenta canções dos CDs Quando Eu Canto o Meu Samba, já lançado, e músicas que estarão no próximo trabalho do compositor em fase de produção, o CD Um Salto. No repertório, sambas e choros de lamento, marcas da poesia de Paulo César Pinheiro e das criações melódicas e harmônicas de Rubens, além de canções em parceria com Consuelo de Paula, Etel Frota, Jorge Rosas e Fran Papaterra.
Dias 21, 22 e 23 de outubro de 2011 | sexta e sábado 21h, domingo 19h.
TEATRO DÉCIO DE ALMEIDA PRADO
Rua Cojuba 45, Itaim Bibi – próximo à Av. Brig. Faria Lima X Rua Tabapuã
mais informações: teatro décio de almeida prado | 11 3079 3438
ENTRADA FRANCA

26 de outubro de 2011, quarta-feira, 21h
UMA SUÍTE BRASILEIRA | MAURY BUCHALA E JULIANA AMARAL
Influenciado por grandes compositores da MPB, como Tom Jobim e Chico Buarque, e pela pesquisa da variedade de ritmos e estilos, Maury Buchala – compositor, regente, arranjador e pianista – escreveu “Uma Suíte Brasileira”. Neste espetáculo, que conta com a emocionada interpretação de Juliana Amaral, Maury apresenta suas canções originais, e revisita alguns clássicos.
Com
Maury Buchala | piano
Juliana Amaral | voz
João Poleto | flauta
Marcelo Cabral | contrabaixo
Fábio Bergamini | bateria
SESC IPIRANGA | Teatro
Rua Bom Pastor 822, Ipiranga, São Paulo | telefone: 11 3340 2000
Classificação etária: 10 anos
Ingressos a venda pelo Sistema IngressoSESC: R$ 16,00 [inteira] R$ 8,00[usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante] R$ 4,00 [trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes]

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Metá Metá na Choperia do Sesc Pompeia

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O novo de Jussara Silveira, por Patrícia Palumbo

Foto de Sérgio Guerra, inspirado em Cláudia Andujar

POESIA PRA TOCAR NO RÁDIO

Jussara Silveira por Patricia Palumbo

Jogando uma boa conversa fora com a poeta e letrista Alice Ruiz chegamos à conclusão de que nossa amiga mais poeta sem ser é Jussara Silveira. Ela é capaz de sacar um livro da estante no meio de uma entrevista e ilustrar nosso trabalho com uma leitura de Catulo.

É assim que recebo seu novo disco, como um poema. Ou uma sucessão deles. Jussara sempre pautou seu trabalho na verdade da vida, naquilo que importa pra ela e que no fim é o que vale pra nós todos. Seus discos são reflexo de suas escolhas. Todas muito pensadas num tempo muito particular.

Pra fazer “Ame ou se Mande” ela escolheu Sacha Amback e Marcelo Costa. Sozinhos já são músicos excepcionais, juntos fazem do som uma nova invenção.

Jussara pensou num trio e no resultado do encontro da sua voz com essas inteligências musicais. Da intenção ao fato veio esse som cheio de texturas, essa conversa entre os três músicos no palco: Jussara, Sacha, Marcelo. E a gente sabe que a boa música é como a boa conversa. Foi muito esperto levar o show para o estúdio, ficou impresso o diálogo.

Jussara gosta de falar do amor e da saudade. Tem feito isso lindamente com essa voz limpa, clara, afinada e elegante. Desta vez, sem violão! E aqui parece que quer nos levar pra uma cidade imaginária num mundo melhor, um Cabo Verde baiano com a capital cercada de mar. As canções tem sequência proposital num encadeamento poético musical pautado também por pessoas que fazem parte de sua história.

Ouça com atenção com a régua e o compasso que vamos passar por aqui faixa a faixa.

1. A Voz do Coração – Celso Fonseca e Ronaldo Bastos

Depois de quatro anos sem gravar ela vem pra falar da pessoa  inserida nesse mundo do consumo, do imediatismo jogando poesia no nosso cotidiano vão. Abrir o disco com essa música é já dar o recado. Ronaldo Bastos lançou seu primeiro cd e ainda o antológico Canções de Caymmi. Começa aqui o cd e a sucessão de pessoas que importam.

2. Ifá (Cezar Mendes/Capinan)

Uma reza, um canto de oração e de amor. Um jogo de buzios nas teclas de Sacha Amback. Ir ao bonfim é um habito, uma tradição da baiana que reza aos deuses da música e do candomblé. Ouviu essa canção de Cezar Mendes – com quem canta e toca desde muito cedo – num barzinho em Salvador. Uma parceria com Capinam.

3. Madredeus (Caetano Veloso)

A cena é num trapiche do recôncavo baiano. Deitada olhando o céu percebe a imensidão com os versos de Drummond e o compasso ímpar da música em 5.  Conversa de músico. Caetano Veloso é paixão e referência.

4. Contato Imediato (Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Carlinhos Brow)

Os Tribalistas aparecem pra destacar o encadeamento poético do cd. Diante da imensidão o que se quer é um contato imediato.  Arnaldo, Marisa e Carlinhos com  sua poesia pop romântica num arranjo que lembra a musica de um carrossel que flutua e viaja pedindo por um mundo melhor.

5 Marcianita (José Imperatore Marcone / Galvarino Villota Alderete versão: Fernando César)

A esperada! Clássico do seu repertorio de shows, Marcianita , a astronauta tropicalista está com Jussara desde o primeiro show. Todo mundo pedia e finalmente ela gravou. Mais uma vez Caetano – influência primeira.

6. Bom (André Carvalho /Qinho )

E de Caetano pra João Gilberto é só uma nota. Um samba de roda com cara de Bim Bom. Essa musica pra Jussara é a própria leveza, Marcelo Costa que trouxe. Parceria do filho de Dadi, Andre Carvalho com Qinho, jovens compositores da cena carioca.

7. O Dia que Passou  (Toni Costa/ Luiz Ariston)

Outra vez o sol… Lembra a canção dos Beatles, mas não é, é a musica do engano. Quando você presta atenção na letra toma um susto com aquela tristeza – a vontade de Jussara é que a pessoa se reconheça na canção

8. Tenho Dó das Estrelas

Zé Miguel Wisnik sobre poema de Fernando Pessoa

Estrelas luzindo há tanto tempo, tenho dó delas… Jussara canta e depois diz: Fernando Pessoa me dá tontura.  Desde criança ela canta a separação, faz parte do seu DNA esse lirismo dolente, esse fado tropical. No arranjo primoroso a poesia de Portugal ganha uma morna do Cabo Verde. Aqui fica explícito, um poema em forma de canção.

9. Doce Esperança (Roberto Mendes/ J. Velloso)

Uma outra oração, amor cheirando a jasmim. Jussara sempre cantou Doce esperança e faz a ponte com Marcianita, uma filha de oxum espacial.

10. Babylon (Zeca Baleiro)

Resgata a musica que tem letra deliciosa esquecida nas paradas de sucesso. Uma brincadeira com o amor e o mundo do consumo – o que Zeca Baleiro faz muito bem muito como cronista espirituoso.  Sai do lugar da queixa e foi o que mais agradou a cantora.

11. Dê um Rolê (Moras Moreira /Luiz Galvão)

Amor da cabeça aos pés! Mais Jussara impossível. Uma canção sugerida por mim, me lembrou Jussara, há mais de 5 anos. Sempre achei perfeita pra ela cantar. Taí, e é dado o recado. Como ela mesma diria, fica assim entre nós essa promessa de felicidade. Aproveite em alto bom som! 

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Zé Miguel Wisnik e Banda levam Indivisível a Rio Branco, no Acre

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Metá Metá em compacto

O MetaFísico. O trabalho de Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França será lançado em CD, dia 27 de outubro no SESC Pompéia, na Choperia. Um lançamento também parceria da CIRCUS/DESMONTA

E pra não perder o costume, acaba de sair mais uma crítica na Revista Noise sobre o Metá Metá: O melhor disco brasileiro de 2011. Fecha a conta

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Juliana Amaral canta sexta no Teatro Coletivo

7 de outubro de 2011, sexta, 23h
JULIANA AMARAL | SM, XLS NO TEATRO COLETIVO
Juliana Amaral participa do projeto Música para Todos, do Teatro Coletivo e Cooperativa de Música de São Paulo, apresentando o repertório de seu próximo CD, SM, XLS (samba mínimo, extra luxo super).
O repertório traz sambas de Wilson Baptista, Noca da Portela, Tom Zé, Itamar Assumpção, Moraes Moreira, Galvão, Fred Zero Quatro, Paulo Vanzolini, e canções inéditas de Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Rubens Nogueira, Heron Coelho, Francis Hime, Gianfrancesco Guarnieri, Douglas Germano, Lincoln Antonio, Maurício Pereira, Nenê e Pedro Marques. No disco, essas canções serão executadas de forma mínima (e pouco trivial): a voz será acompanhada por apenas um instrumento – clarinete, sanfona, piano, viola caipira, cavaquinho, saxofone, contrabaixo acústico, pandeiro. No show, os arranjos serão adaptados para o violão e a percussão, preservando a mesma sonoridade.
No show do dia 7, Juliana Amaral será acompanhada por Gian Corrês (violão de 7 cordas) e Samba Sam (percussões), com a participações especiais de Alexandre Ribeiro (clarinete) e João Paulo Amaral (viola caipira). A direção é de Humberto Pio.
TEATRO COLETIVO
Rua da Consolação, 1623, São Paulo
tel. 11 3255 5922
ENTRADA FRANCA
mais informações teatrocoletivo.com.br | circusproducoes.com.br

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A crítica de Mauro Ferreira para “Indivisível”

Wisnik lustra muitas pérolas para poucos no belo disco duplo ‘Indivisível’

por Mauro Ferreira

Resenha de CD
Título: Indivisível
Artista: Zé Miguel Wisnik
Gravadora: Circus
Cotação: * * * * 1/2

A trilha sonora do Brasil dos anos 2000 seria menos pobre se as multidões que consomem a atual música  sertaneja cantassem Tristeza do Zé, tema que dialoga inteligentemente com Tristeza do Jeca (Angelino de Oliveira, 1918), um dos clássicos nacionais do gênero. Tristeza do Zé é cantada por seus compositores, Zé Miguel Wisnik e Luiz Tatit, em Indivisível, álbum duplo recém-lançado por Wisnik. Mas é triste saber que o Brasil não vai cantar Tristeza do Zé, tema cujo acento rural é acentuado pelo acordeom de Marcelo Jeneci, nome recorrente na ficha técnica das 25 faixas deste quarto título da discografia do compositor, pianista e escritor. Um dos mais refinados compositores do Brasil, hoje com 62 anos, o paulista Wisnik compõe pérolas para poucos. Valorizado  visualmente por projeto gráfico (de Elaine Ramos) que aglutina os dois CDs em embalagem que entrelaça as iniciais do artista, Indivisível reúne 26 pérolas que poucos vão ouvir. A maioria é inédita. Algumas já foram gravadas por nomes como Zélia Duncan e Elza Soares, já que Indivisível reúne a mais expressiva produção autoral de Wisnik pós-2003, ano em que o compositor lançou seu último álbum, Pérolas aos Poucos. Os dois discos são gêmeos univitelinos, inseparáveis, indivisíveis, ligados até por suas diferenças simétricas. O CD de capa azul e encarte marrom é conduzido pelo violão de Arthur Nestrovski. O CD de capa marrom e encarte azul  é guiado pelo piano tocado pelo próprio Wisnik (exceto em Canção Necessária, parceria de Guinga com Wisnik, faixa na qual Jeneci assume o piano). Irmanados em sua sofisticação, os dois álbuns apresentam tantas músicas lindas que talvez uma obra-prima como O Primeiro Fole – a primeira melodia composta por Jeneci, ora gravada com a letra feita por Wisnik – passe até despercebida. “A letra fala do piano, que é o nosso instrumento, da sanfona, que é instrumento dele, e do lugar misterioso onde a gente vai buscar as palavras para as canções”, conceitua Wisnik, que também arrisca registro mais intenso ao regravar Feito pra Acabar, parceria com Jeneci e com Paulo Neves que deu título ao álbum lançado pelo recorrente Jeneci em 2010. Produzido por Alê Siqueira, Indivísivel é disco embebido em lirismo e em poesia, inclusive pelo fato de Wisnik ter musicado versos de Antonio Cícero (Os Ilhéus, outra grande faixa do CD conduzido pelo piano), Carlos Drummond de Andrade (Anoitecer), Fernando Pessoa (Tenho Dó das Estrelas, tema gravado por Jussara Silveira em seu vindouro álbum Ame ou se Mande) e Gregório de Matos (Mortal Loucura, da trilha sonora do balé Onqotô, apresentado pelo Grupo Corpo em 2005). E até porque a letra escrita por Wisnik para a camerística Ilusão Real é pura poesia que resiste bem sem a melodia intrincada composta por Guinga. Tal rebuscamento é perceptível também na melodia sinuosa composta por Chico Buarque para a música que veio a se chamar Embebedado quando recebeu a letra precisa de Wisnik. Lançada por Gal Costa em seu álbum Hoje (2005), Embebedado é rebobinada por Wisnik em dueto luxuoso com Chico. No todo, o CD guiado pelo piano resulta mais denso, mais sisudo. No disco conduzido pelo violão, há mais espaço para a leveza e até para o humor detectado em temas como o samba Sem Fundos (Zé Miguel Wisnik e Vadim Nikitim). E por falar em samba, Sócrates Brasileiro (Zé Miguel Wisnik) – já gravado por Ná Ozzetti – celebra o famoso jogador (atualmente às voltas com graves problemas de saúde) em letra cheia de poesia. Em tom mais carnavelesco, Eva e Adão ou Marchinha da Família (Zé Miguel Wisnik, Ana Tatit e Zé Tatit) defende com descontração a construção de famílias derivadas de uniões homoafetivas. Mas há também melancolia no disco guiado pelo violão, perceptível já na pungente faixa de abertura, Serenata (Franz Schubert e Ludwig Rellstab), traduzida para o idioma musical brasileiro na forma de toada pelo violonista Arthur Nestrovski. Há algo também de melancolia sertaneja em Eu Vi, versão de Wisnik para tema de Henri Salvador (1917 – 2008) e M. Modo lançado por Henri em seu álbum Chambre Avec Vue (2001). Entre muitos temas inéditos (como o Acalanto de Wisnik com Nestrovski, raro momento em que o alto nível de inspiração do repertório cai um pouco) e algumas regravações (Presente, Cacilda, Se Meu Mundo Cair), o conceitual Indivisível reitera a grandeza da obra de Zé Miguel Wisnik, mestre em oferecer pérolas para poucos. Como tem nesse triste Brasil sertanejo!…
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