Terra Magazine – Quinta, 15 de dezembro de 2011, 07h59
Atualizada às 08h03
As Canções de Eduardo Coutinho, Jussara Silveira e o Cosmos
Paquito
De Salvador (BA)
A concepção é simples. Pessoas entram individualmente no que parece ser um estúdio, sentam numa cadeira, contam histórias sobre a vida delas e cantam canções que remetem às histórias que contam. Eduardo Coutinho, o diretor, é o entrevistador. Em filmes como Edifício Master e Jogo de cena, ele também faz as pessoas falarem e tira delas, se não o melhor, demonstrações de humanidade, transformando-as em poesia. Não poesia pura, mas contaminada de vida e tudo que remete à.
No caso deste As canções, o que muda é o fato de as pessoas cantarem canções de Jorge Ben, Roberto & Erasmo, Tom & Chico, Lyra e Vinicius, Noel Rosa, a versão do bolero Perfídia e até, em dois casos, canções compostas pelas pessoas que falam. As canções são conhecidas, mas quem as canta, não. As canções dão o norte, e as pessoas contam histórias fortes, marcantes que, num programa tipo o de Faustão, talvez soassem banais. A diferença é o recorte. Quem faz o recorte é Coutinho, de fala mansa e rouca, que se irmana com o entrevistado, o que faz um paralelo com o programa Ensaio, em que o diretor Fernando Faro, o Baixo, também faz as pessoas falarem de si e das canções.
No caso do Ensaio, quem fala são profissionais de música, que alcançaram alguma notoriedade fazendo ou cantando canções. Faro nos faz ver o mais íntimo deles, docemente. Coutinho, por sua vez, ao focar em não profissionais, gente comum, mostra quão profunda é a ligação das canções com a vida das gentes e, talvez por isso, é que se chame canção popular a esse tipo de arte que amplamente define o Brasil, no grande e no pequeno.
Se o norte é a canção, o esteio é a vida das pessoas, de onde vêm as canções, e para onde elas voltam, depois de feitas. O que Coutinho faz é dar visibilidade a esse pano de fundo, ao bastidor da vida, o invisível, que não aparece no jornal, e, quando aparece, é reduzido, vira mundo-cão. Nos reality-shows e programas de TV, a exibição de intimidade faz a vida da gente comum – e que almeja o incomum – ser apenas um jogo enfadonho – para dizer o mínimo – e a vida de gente famosa, uma sucessão de motivos fáceis para se chorar.
Coutinho dá a impressão de ser fácil porque é simples, mas, ao dar luz e poesia ao óbvio, ele é o melhor.
Falar de canções, e da maneira como Coutinho as trata, me remete à Jussara Silveira e, na volta da sessão do filme, pus seu Cd novo, Ame ou se mande, pra ouvir no carro. Anna, minha namorada, se emocionou de cara. Eu, que conheço Jussara há muitos anos, venho me emocionando há tempos com seu canto, suas escolhas, sua leveza sem prejuízo da intensidade. Jussara trata as canções inicialmente com gentileza, e não canta qualquer canção, pois precisa conhecê-las como se conhece uma pessoa, para depois, se tornar ou não íntima dela.
Quando vem a intimidade, Ju dá o melhor de si à canção, e a recíproca também é verdadeira. Jussara mantém, com as canções que escolheu pra cantar, histórias de amor. Assim é com Marcianita, que ela canta há anos, mas nunca havia gravado. Esta música latina, cuja versão brasileira foi gravada por Sérgio Murilo, nosso primeiro rei do rock brasileiro, pré- Roberto Carlos – e também por Caetano, em 1968, auge da Tropicália – graças ao arranjo de Sacha Amback (piano e sintetizadores) e Marcelo Costa (bumbo, caixa, atabaque e caxixi), está mais latino e balançado, reencontrado com suas origens passionais.
Sacha e Marcelo são, além de Ju, os únicos músicos em todo o disco: teclados e percussões, o que dá unidade e beleza à variedade de autores que Jussara escolheu pra interpretar. E ela está cada vez mais intérprete, daí a razão da emoção instantânea de minha namorada: a expressividade do canto de Jussara.
No mais, apesar do título Ame ou se mande ser associado mais facilmente à temática do amor e desamor, muitos dos versos apontam o olhar e o canto para os céus, o espaço sideral e as estrelas, em conjunção com o Cosmos. Os poetas e letristas sabem: somos filhos das estrelas, estamos aqui graças ao sol, como bem diz O dia que passou que, citando a canção mais solar de todas, Here comes the Sun, dos Beatles, juntou a vocação pop de Toni Costa, que fez a melodia, com o construtivismo e enxutez de Ariston, autor da letra, e um dos autores a que Jussara se mantém mais fiel.
Quando Ju me entregou seu disco, era apenas uma cópia da matriz, sem capa, e eu o ouvi inteiro durante a noite, sozinho, cismando feito o poeta com saudades da terra amada. As faixas eram objetos não identificados. Eu não sabia, com exceção das conhecidas, os autores das músicas, e fiquei impressionado com a letra de Tenho dó das estrelas. Perguntei, no dia seguinte, à Jussara, quem era o letrista de versos como “Tenho dó das estrelas/ luzindo há tanto tempo (…) não haverá um cansaço das coisas (…) um cansaço de existir?”
O letrista era Fernando Pessoa, musicado por Zé Miguel Wisnik.
Madre Deus, de Caetano, Contato imediato, de Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carlinhos Brown, e Marcianita, de Marcone, Alderete e Fernando César, também falam de estrelas e viagens siderais, quase contagiando versos de outras do repertório, mais especificamente românticas: “a procura de amor/ por onde for”, de Doce esperança, de J. Velloso e Roberto Mendes, adquire uma conotação mais ampla, e “a voz do coração”, de Ronaldo Bastos e Celso Fonseca, dá a impressão de alcançar velocidades interplanetárias pra se fazer ouvir.
É como se as canções dessem as mãos umas às outras pra passear no disco-voador de Jussara e, assim como se irmanam os cantores amadores do filme de Eduardo Coutinho, também se assemelham as canções, os cantores, os seres, tudo que existe e tem fim: nós, poeira de estrelas.
Paquito é músico e produtor.