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Cássia Eller na Sum dez anos depois

Em 1999 eu andava à deriva. Louco. Assumir que era um advogado que enveredaria para a produção cultural doía e foi vitimando pedaços do meu corpocoração.

Ainda em São Paulo eu assistia às aulas no Curso Preparatório para Concurso toda manhã e noite, mas às tardes, ao invés de reservadas para o estudo, era o tempo do refúgio nos cinemas, de preferência as salas vazias -mais vazias- de São Paulo. Unibanco e Cine Sesc na Augusta e Cinamateca perto do apê na Praça da Árvore.

Mas o destino reservou de 1999 ser o ano que o Rodrigo Xavier e a Lia Pinheiro terem assumido a SUM e eles me permitiam confabular sobre as possibilidades musicais do evento. Foi assim que eles tiveram a grande ousadia de fazerem numa só noite um show com o Lucas Santana, o Pedro Luís e a Parede e o Lenine.

Ironia do destino, depois de ajudá-los na pré-produção daquela insanidade para os padrões Mococa, eu fui obrigado pela minha hipocrisia a prestar um concurso para o Ministério Público de Minas Gerais e perdi o show mais ousado que eu ajudei a programar dentro da SUM.

Peguei o ônibus em Guaxupé para Belo Horizonte ainda bêbado e arrasado por aquilo. A SUM acabou mas a Lia e o Rodrigo tinham que me tirar das trevas do direito e me jogar no back stage da ribalta dos palcos.

E a gente fez que fez que conseguiu uma data de um show com a Cássia Eller por bilheteria em Mococa. Claro que a Ana Almeida estava por trás de uma grande turnê que a Cássia faria por várias cidades do interior.

E a Cássia Eller tinha acabado de lançar o melhor disco da carreira dela, Com Você…Meu Mundo Ficaria Completo. O disco era completo. Foi o momento que tudo conspirou pra ela. Cássia Eller completava uma trilogia de excelentes discos: Veneno AntiMonotonia (1997) e Veneno Vivo (1998), dois discos que ela chafurdou na obra do Cazuza. Veneno Vivo que poderia ser mera repetição do disco do estúdio surprendia desde a direção de Wally Salomão mas também pela capa mais linda dos anos 90 e pela gravação definitiva de “Vida Bandida” do Lobão.

Mas “Com Você” a trilogia completou-se serenamente. Foi quando Cássia Eller parece ter encontrado seu alter ego, Nando Reis, inspiradíssimo. Encontrou um empresário à altura dela, Leonardo Netto e o disco veio como um presente-premonição pra mim e para a virada de milênio na indústria fonográfica brasileira.

O disco tinha quatro inéditas do Nando Reis. Caetano, Gil, Itamar Assumpção, Luiz Melodia e um “novo” compositor de Niterói chamado Luis Capucho.

O disco não era pretencioso e nem rompia com nada. Tinha lá o mesmo Itamar Assumpção e o Luiz Melodia dos dois discos do começo da carreira. Tinha ali Carlinho Brown, Marisa Monte e Aranldo Antunes pré-tribalistas. Caetano e Gil trataram de mandar inéditas pra ela. Tudo na medida. E o show era igualmente lindo, trazia no palco a bateria de João Vianna, Fernando Nunes no Baixo, Walter Villaça na guitarra, Lanlan e Thamina Brasil na percussão e Chiquinho Chagas no teclado e num acordeon bonito de doer.

Eu era um fã da cantora. Doente por ela. Era a melhor coisa dos anos 90. Em 1999 eu comecei a fazer uns “bicos” escondidos de produção e me lembro de trabalhar como assistente num show da Cássia Eller na choperia do Sesc Pompéia. Tomamos tanto chopp que no final do show eu tava lá me acabando na frente do palco.

E a Lia e o Rodrigo e a SUM daquele ano se deram ao luxo de fazer o show novo da Cássia Eller no dia 30 de outubro de 1999. Fizemos uma camiseta igual àquela da capa do disco: Ela com uma peruca, apoiada só de calcinha e uma camiseta cinza, escrita I Swan In The  J.C.C.

Eu ali, louco para achar que todas aquelas coincidências - o show ia acabar rolando bem no meu aniversário - eram sinais mandados do além pra me dizer que a minha única saída era dar um bico no Direito e cair de cabeça no trabalho que gostava: Música.

Puta que pariu, mas você nem imagina o tanto de probelma que aquele show deu… Deu (quase) tudo errado. Locamos um ônibus leito que errou o caminho para Mococa e quebrou perto de Mogi Mirim. Foi uma tarde daquelas de 40º e o grupo todo dentro de um ônibus com ar condicionado quebrado. Quando a equipe da SUM chegou no local com um monte de carros para resgatá-los, Cássia Eller estava em cima do ônibus pelada (é claro) tomando sol.

Chegaram em mococa em cima da hora pra montar e passar o som. Lembro-me que ela chegou lá de skate (que ela dizia estar curtindo com o filho Chicão). Ela estava totalmente limpa. Não tomava nem uma gota de álcool. Compramos bastante energético para o camarim além da energia vital da Vânia que fazia tudo parecer o quintal sagrado da casa dela.

O show deu pouca gente. A produtora Carla Popovic (sócia da Ana naquelas alturas) passou mal e não conseguiu sair do hotel. O estresse era tanto… O show não teve o público esperado. A acústica do local não era a mais adequada mas é claro que o show foi de cair o queixo.

Passei um aniversário ambíguo, “sem pódio de chegada ou beijo de namorada” acordei da doce ilusão e vislumbrei grandes dificuldades para tomar a decisão pra minha vida futura, seja qual fosse.

Depois daquele show que eu trabalhei como nunca havia trabalhado, fui convidado pela Babel pra trabalhar. O presente tardio foram mais dois shows da Cássia Eller por Ribeirão Preto, Taubaté e certeza que teria de preparar uma carta bem convincente para o papai e para a mamãe explicando que Exageradamente, eu teria que largar a “carreira, o dinheiro e o canudo” por causa da minha nova vida de produtor. Que contradição.

Não sei se não, mas acho que se não fosse a Cássia Eller eu estaria até hoje escondido dentro de um terno e gravata falando pelos outros. Não sei não, mas aquele disco também foi decisivo. Todas as músicas queriam me dizer algo, fosse pra mim, fosse pro meu amor, fosse pro pai, fosse pro meu futuro.

Faz dez anos que a Cássia Eller se aproximou do fã pra mudar a vida dele – parece frase do Criança Esperança, né? – e faz uma década também que foi lançado “Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo”, assim como “Lado B Lado A” de O Rappa, outra preciosidade. O novo milênio chegou, a Cássia Eller morreu e levou tudo o que havia ainda de esperança na indústria cultural. A indústria cultural nem sabe mais quem ela é. Graças a Deus e a Internet. Amém

Comments

Comment from luís capucho
Time: outubro 30, 2009, 1:25 pm

legal seu texto emocionado e saudoso, Guto!
um abraço,
luís.

Comment from guto
Time: outubro 30, 2009, 3:16 pm

Oba! Luís (com “s”) Capucho aqui nesse Picadeiro..! Antes do tarde que nunca ,descobri seu blogue (http://luiscapucho.blogspot.com/) que será indicado ali, no BlogRoll. Data Venia, segui-lo-ei
Volte sempre

Comment from Anna
Time: outubro 30, 2009, 6:20 pm

É, pai… Minha mãe bombou com a Cássia, elas se adoraram. Eu só vi a parte limpa, passagem de som a tardinha la na Cooperativa.
Mamãe censurou o show, diz ela que é o maior arrependimento que ela já teve com a gente, os filhos que não entenderiam o movimento branco do camarim.
Ficou tudo na imaginação, só.
E naquela época eu já era fã da nega também. Já sabia todas de cor!
Queria tanto ter ido… mas fiquei aos cuidados da vovó! eitcha!
Se vc já fosse meu pai naquela época, talvez…

Comment from Anna
Time: outubro 30, 2009, 6:20 pm

Ah, mas no Pedro Luis + Lenine + Lucas Santanna eu fui!
E adorei!

Comment from Sandra Lacerda
Time: novembro 8, 2009, 1:49 am

Êita, lembrei que preciso devolver tua gravata! rs

Lindo texto, Guto!
Parabéns pela escolha.
Também tive que fazer uma escolha parecida, mas no meu caso quem me salvou foi o mar de Minas (que é o céu) de Ceumar.
Que bom fazer parte da sua equipe e aprender com essa caminhada.

Comment from diegokbzon
Time: fevereiro 23, 2010, 10:07 am

Muy bello texto, yo también tengo que decir “Graças a Deus e a Internet. (y a mi amiga Sara) Amém” y me encuentro con la interrogante de cuál camino escojer, felicidades por “sua escolha”.
Saludos desde Paraguay.

Comment from Vanessa
Time: julho 31, 2010, 12:55 am

Cara, sou louca pela Cassia tambem. O dico com você… marcou a minha vida! Que pena que ela se foi, o cd acústico foi uma grande despedida.
Tentei achar a camiseta igual, mas não consegui. Acho o máximo esta camiseta, Valeu pelo post!

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